Somos surpreendidos quando olhamos para o relógio. “Ainda é de dia?”. Os ponteiros parecem mais tranquilos, como que a usufruir do clima mais ameno e da vibrante transformação da natureza à nossa volta. Estamos na Primavera e apetece meter uma mochila às costas e ir explorar os campos, os bosques e as montanhas, sentir a brisa morna no cabelo e as cores do reflorescer da vegetação no olhar. Esta é a estação na qual os trilhos pedestres ganham outro encanto. E porque nós queremos que se encantem, fomos procurar cinco percursos particularmente mágicos nesta altura do ano para vos sugerir. Mas não procurámos sozinhos. Para que o encantamento seja ainda intenso, pedimos ajuda a especialistas. Nuno e Catarina Santos são um casal da Figueira da Foz que se apaixonou pelas caminhadas na natureza há, precisamente, 11 Primaveras atrás.  Aventuraram-se nas “Escarpas da Mizarela”, em Arouca, e ficaram rendidos. Passaram a organizar os seus fins-de-semana para fazer trilhos pedestres no resto do país. Após incontáveis passos e quilómetros, resolveram ajudar outras pessoas que tenham a mesma paixão. Criaram o blog “Sola Gasta”, onde partilham detalhadamente as suas caminhadas, que já são mais de 400. A partir de 2015 integraram um terceiro elemento nas aventuras. A filha, Maria, passou a acompanhá-los em busca de “sítios incríveis”. Dos muitos que já encontraram, escolheram cinco. Cinco percursos pedestres na região Centro que devem ser feitos na Primavera. Se no final destas linhas vos despertarmos a vontade de sair de casa para os ir conhecer, seremos nós a ficar encantados.

 

COIMBRA

Rota dos Arrozais (Maiorca, Figueira da Foz)

Imagina-se a caminhar por um trilho de terra batida que serpenteia no verde imenso de um campo de arroz? Essa é a proposta de Nuno Santos para usufruir nesta estação. O caminhante escolheu a “Rota dos Arrozais”, que começa no centro da vila de Maiorca, concelho da Figueira da Foz. É um percurso circular (13,4 km) que, como o nome indica, tem por tema central os campos de arroz do Baixo Mondego. “Durante todo o ano a paisagem vai mudando, acompanhando o ciclo de cultivo deste cereal. Após o repouso dos campos no Inverno, as chuvas que vão caindo transformam a paisagem num espelho de água gigantesco”, afirma Nuno Santos. Explica que em meados da Primavera é iniciado um novo ciclo de cultivo. “Preparam-se os terrenos, inicia-se a sementeira e a azáfama é grande”. O caminhante salienta a beleza do percurso nesta altura. “Estamos em plena fase de crescimento do arroz que, já fora de água, pinta de um verde intenso os campos do Baixo Mondego”.

Ao longo do trilho encontram-se vários motivos de interesse. A Ponte das Cinco Portas (considerada a ponte mais antiga do Baixo Mondego), um moinho de madeira no topo de uma colina, uma fonte do último ano do século XIX, chamada Fonte da Oliveira, uma capela de 1671 (Santaolaia) e até as ruínas do Castro Santa Olaia, que ao longo dos séculos abrigou seis povoados (um do neolítico, três da Idade do Ferro, um romano e outro medieval) e que está classificado como Interesse Público desde 1954.

Nuno Santos destaca ainda a avifauna que se encontra pelo caminho, “especialmente a grande quantidade de cegonhas que aproveitam o alimento abundante, como lagostins e pequenos peixes, para se banquetearem”.

CASTELO BRANCO

Caminho do Xisto de Água Formosa (Vila de Rei)

São 27 as aldeias que integram a Aldeias de Xisto e que podem ser visitadas no território da região Centro. Todas elas maravilham o casal de caminhantes. “Cada uma tem a sua beleza particular que nos continua a surpreender sempre que as visitamos”, afirma Nuno. “Não podíamos deixar de sugerir um percurso que nos levasse a descobrir uma delas”. E assim, escolheu o trilho “Caminho do Xisto de Água Formosa”, na aldeia de Água Formosa, no concelho de Vila de Rei. Trata-se de um percurso pedestre circular (7,4 Km), que inicia na referida aldeia, encaixada num vale na margem da Ribeira da Galega. A aldeia deve o seu nome uma fonte de água fresca que fica no centro da povoação e que, para além de abastecer os habitantes, funciona como ponto de encontro para várias gerações e um pretexto para convívio. “É comum encontrar alguns locais sentados ao seu redor, com muitas histórias para contar sobre a sua terra”.

O percurso percorre a aldeia, leva-nos por trilhos rurais usados por agricultores e moleiros, quase sempre acompanhando o curso da ribeira. Mais adiante, já acompanhando a Ribeira da Valada, chegamos a Vilar do Chão. “É um percurso realizado quase em permanente contacto com as refrescantes águas das ribeiras onde podemos observar algumas pequenas quedas de água e usufruir da tranquilidade das paisagens rurais com as cores primaveris”, refere Nuno.

Na aldeia próxima de Milreu, é possível encontrar a Cascata do Penedo Furado, uma praia fluvial rodeada de vegetação, equipada com meio quilómetro de passadiços que culminam numa zona com cascatas.

Já em Vila de Rei – conhecida pelos seus enchidos, queijos e mel – é possível visitar o centro geódesico de Portugal. A cerca de dois quilómetros da povoação, encontra-se a Serra da Melriça. No seu cume (592 metros de altitude), está erguido um enorme marco geodésico que assinala o Centro Geódesico do país. O centro de Portugal no Centro de Portugal.

AVEIRO

Trilho da Pateira ao Águeda (Fermentelos, Águeda)

A Pateira de Fermentelos é a maior lagoa natural da Península Ibérica. Nuno Santos escolheu um trilho pedestre que a percorre como sugestão primaveril. “Por trilhos ‘frescos’ quase sempre com a água presente no enquadramento e os campos floridos nas suas margens onde podemos observar uma rica avifauna típica destas áreas lagunares”, afirma. A abundância de espécies de aves tornou a zona um destino popular de birdwatching. A garça-vermelha, o milhafre-preto, a águia-sapeira, a águia-de-asa redonda, o guarda-rios, o perna-longa, o pato-bravo, o galeirão e a águia-pesqueira são algumas das aves que podem ser avistadas a esvoaçar por cima das cabeças de quem se aventura neste trilho.

Ao longo dos 13 quilómetros deste percurso circular, testemunha-se a imensa transformação que a abundante vegetação da área sofre nesta estação. Os amieiros florescem, surgem as folhagens em forma de diamante nas copas dos choupos e as folhas aromáticas nos loureiros, avista-se ao longe o verde vivo dos freixos e os robustos troncos dos carvalhos ficam revestidos por copas exuberantes. Por algum motivo desde tempos antigos foram batizados pelos celtas com as palavras kaer (Belo) e valos (forte).

A lagoa está recheada de plantas flutuantes, como nenúfares, jacintos ou moliços, uma planta aquática que era tradicionalmente usada como adubo na agricultura aveirense e que deu o nome aos famosos moliceiros, as embarcações que eram usadas para o apanhar à força do ancinho e que hoje apaixonam tantos turistas na Ria de Aveiro.

Nas proximidades, é possível visitar a sempre fotogénica Ponte Romana do Marnel, em Lamas do Vouga e o Núcleo de Macinhata do Vouga do Museu Nacional Ferroviário, onde se encontram locomotivas do século XIX e inícios do século XX. Uma passagem na Estação Arqueológica do Cabeço do Vouga permite testemunhar os vestígios de Talábriga, a principal cidade romana do Baixo Vouga na altura do respetivo império.

SANTARÉM

Percurso Pedestre das Marinhas de Sal (Fonte da Bica)

No extremo sul do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros há umas salinas muito particulares. Estão a 30 quilómetros do mar. Nuno Santos escolheu o trilho pedestre (circular, 4,3 Km) que as atravessa. “É uma paisagem peculiar que não estamos habituados a ver tão longe do mar e por isso merece uma visita”, afirma. Para além disso, é nesta altura da Primavera que são feitos os trabalhos de extração, que permite contemplar as inúmeras pirâmides de sal nas salinas.

Antes de dar início à caminhada, é interessante perceber como é que isto acontece. Num passado muito distante o mar chegava à região. Quando recuou, deixou um rasto de sal que se cristalizou no subsolo, criando

uma mina de sal-gema. Sendo a região fértil em rocha calcária permeável, a água das chuvas penetra no solo e atravessa essa jazida, criando “um poço salgado onde a concentração de sal é sete vezes superior à existente no mar”, diz Nuno. “Com a chegada da Primavera, com a exposição ao sol e ao vento e consequente evaporação da água nos talhos, é obtido o sal, que é disposto em pequenos montes para secar até ser recolhido”, explica o caminhante.

Esta peculiar característica desta terra já é rentabilizada há séculos. Há registos de romanos e árabes terem extraído sal daqui e há até um documento datado de 1177 que atesta  a venda das minas à Ordem dos Templários.

Um outro atrativo do local são as minúsculas e toscas casas de madeira que acompanham as salinas, outrora armazéns de sal ou até casas dos trabalhadores. Hoje, muitas delas estão convertidas ao comércio de produtos tradicionais, incluindo queijo de sal. Sim, leu bem, queijo de sal. Mas esse sabor é para descobrir no percurso. Este prossegue num caminho de terra entre árvores e terras de cultivo e mergulha na natureza do parque natural. A determinada altura, numa pequena elevação, é possível ter uma vista panorâmica das salinas. “É impressionante, cada talho difere do próximo nas suas medidas e formas, lembrando uma manta de retalhos que, devido à elevada concentração de sal na água assume uma tonalidade avermelhada”.

GUARDA

Caminho Histórico de Sortelha (Aldeia de Sortelha, Sabugal)

“Na Guarda é imprescindível visitar as Aldeias Históricas”, afirma, de imediato, Nuno Santos. Revela que são muitas as aldeias que o deslumbram. “A beleza e singularidade de cada uma transporta-nos para outras eras, tempos de vivências mais simples e genuínas”. Tendo de escolher uma, decidiu-se pela Sortelha, no concelho do Sabugal. “É das mais belas e bem conservadas Aldeias Históricas de Portugal”. O Caminho Histórico de Sortelha (circular, 7,4 Km) tem uma particularidade especial nesta altura da Primavera, que terá pesado na escolha de Nuno. Irão descobri-la mais à frente.

O trilho começa na aldeia e prossegue pelas suas ruas estreias em calçada. “Parece que entramos numa espécie de portal do tempo”, descreve Nuno. “Quando atravessamos a Porta da Vila, encontramos um aglomerado de habitações em granito que nos fazem recuar alguns séculos. O aspeto medieval da aldeia funde-se com a paisagem, grandes rochas graníticas definem as construções e as ruas, nascem das paredes e do chão que pisamos”, complementa.

A localização fronteiriça desta povoação fortificada dotou-a de uma importância defensiva estratégica ao longo dos séculos. Foram muitas as batalhas aqui travadas, no tempo dos romanos, visigodos, muçulmanos, na reconquista, entre Portugal e Castela ou até nas guerras peninsulares, com o exército napoleónico. “Ao subir à muralha do imponente castelo medieval, a vista é de cortar a respiração. Livre e selvagem, a urze floresce e pintalga de amarelo os montes verdejantes e os vales rochosos”.

Ao sair das muralhas, percorrem-se as lajes ancestrais de uma via romana que, mais tarde,  se transformam numa antiga vereda que atravessa a ribeira e acompanha o vale.

O trajeto passa junto à antiga Mina da Bica, uma das três minas da região (Bica, Carrasca e Valdarca) onde, durante décadas, foi explorado urânio, rádio e plutónio. Na região, ainda se contam velhas histórias sobre elas. Há quem diga que a física francesa Marie Curie –  premiada com o Nobel da Física em 1903, pela investigação no campo da radiação, e com o Nobel da Química em 1911, pela descoberta do elemento químico do rádio – fez as suas investigações no mineral extraído nestas minas. Dizem, igualmente, que o plutónio aqui extraído teve um papel preponderante na investigação que levou à produção da primeira bomba atómica.

Créditos fotográficos: Sola Gasta (https://solagasta.com/)