O Centro de Portugal é um território rico em lendas.

As nossas aldeias, florestas, mares e montanhas estão recheadas de histórias e lendas assustadoras, algumas encantadoras, outras mais misteriosas. Vamos centrar-nos nestas últimas neste artigo. Aliás, esqueçam que isto é um artigo.

Imaginem-se num serão aconchegante, na sala de uma casa de pedra numa aldeia, seja Histórica ou de Xisto.

A lareira está acesa, há bebidas quentes no parapeito de uma janela que se abre para ruas antigas e natureza sem fim. E conversa-se sobre estórias, daquelas assustadoras, que tanto metem medo como despertam fascínios inexplicáveis.

Eram assim os serões antigos, com contos fantásticos de bruxas, lobisomens, fantasmas e outras criaturas sobrenaturais que, durante décadas, alimentaram o imaginário das pessoas e passaram de geração em geração, gerando uma riquíssima tradição oral que faz parte do património imaterial das nossas regiões.    

Este serão tem uma particularidade especial. Não se vão limitar a ouvir os relatos misteriosos à lareira. Lá fora, na imensidão do Centro, está o palco destas estórias, o bosque onde vive a criatura misteriosa, a lagoa onde se esconde o monstro, a casa que está assombrada, o cruzamento onde se reúnem as bruxas, a gruta da sereia maldita ou a velha ponte romana por onde passa o lobisomem nas noites de luar.

Sentem-se, oiçam-nas, conversem sobre elas, procurem outras, pois há muitas mais. E depois, só depois, abram a porta e vão lá para fora. O medo e o fascínio estão à vossa espera, no Centro de Portugal.

LOBISOMENS

Lendas e lugares assustadores no Centro de Portugal

Na povoação de Cambra de Baixo, em Vouzela (Viseu Dão Lafões), há uma caverna no meio de um bosque onde, rezam as lendas locais, nas noites de lua cheia se abrigava um ser monstruoso que aterrorizava a região: um lobisomem. Quando a noite se abatia sobre as aldeias, fechavam-se as janelas e trancavam-se as portas. Ouviam-se sons assustadores, uma espécie de cavalgada pesada que percorria as ruas, os caminhos e os terrenos. Ninguém ousava olhar lá para fora, só desejavam que o dia regressasse, sinal que tinham sobrevivido a mais uma madrugada de pavor. As histórias deste misterioso lobisomem passaram de geração em geração na região. Ninguém sabia quem ele era, mas havia quem desconfiasse de algumas famílias numerosas. Segundo a lenda, se o sétimo filho fosse um homem teria de se chamar Bento ou Custódio, de forma a ser protegido da maldição que nas noites de luar o transformava nessa criatura maligna, meio homem, meio lobo, que percorria a região em busca de vítimas para levar para o seu antro. Situada perto da margem do Rio do Couto, essa caverna tornou-se numa atração turística na região, onde se podem encontrar placas com a inscrição: “Cova do Lobisomem”.

Cova do lobisomem_Picasa
Créditos: Picasa

Na aldeia de Vale da Mua, em Mação (Médio Tejo), contam-se histórias de um homem que vivia sozinho, numa casa ligeiramente afastada do resto da povoação. Diziam que ele estava amaldiçoado e que todas as sextas-feiras de lua cheia, se levantava à meia-noite e saia para a rua para cumprir o seu “fado”. Transformava-se num lobo enorme e tinha de percorrer sete povoações acasteladas antes do nascer do dia. Para lhe quebrar a sina, contam, alguém teria de lhe espetar um ferrão quando estivesse transformado e fazê-lo sangrar. Um vizinho tê-lo-á feito, quando o amaldiçoado passou por baixo da sua janela durante a madrugada. Dizem que isso acabou com a maldição do Lobisomem de Mação. Mas há quem diga que ainda é possível vê-lo percorrer as ruas rurais da região nas noites de luar à sexta-feira.

Esta lenda, como muitas outras que envolvem lobisomens na mitologia popular portuguesa, tem uma variante, onde chamam a estes seres “corredores”, “tardos” ou “corrilários”, que podem transformar-se noutros animais selvagens para além do lobo – consta que assumem a forma do animal responsável pela primeira pegada animal que encontrem – tendo como maldição “correr o fado” (percorrer numa única noite sete freguesias, sete pontes, sete fontes, sete montes e sete encruzilhadas).

Também na região de Mação, há uma outra lenda assente nesta variante. Perto da aldeia da Ladeira de Envendos, existe uma velha ponte romana. Conta-se que à meia-noite por vezes aparecia “do nada” um corpulento cavalo branco, que a atravessava em grande velocidade, com o ruído ensurdecedor do impacto das pesadas patas nas lajes da ponte. Os locais não tinham dúvidas e afirmavam tratar-se de um “corredor”. Há quem diga que as ferraduras deixavam até marcas na pedra, que ainda lá se encontram.

VAMPIROS

Lendas e lugares assustadores no Centro de Portugal

Ao entrar numa taberna antiga de Arruda dos Vinhos (Oeste), com um pouco de sorte, poderá ver a sua bebida acompanhada por uma história arrepiante que terá acontecido na vila.

Após muitos anos a vaguear pelo mundo, um velho vampiro ter-se-á encantado por esta terra, pelo seu vinho, pela sua tranquilidade, pelo seu clima e pelas suas paisagens, tendo-a escolhido para passar o resto da sua eternidade. Para amenizar a maldição e as suas condicionantes – que, entre outras coisas, lhe impediam de caminhar durante o dia sob a luz do sol – tinha de esconder a sua capa negra em terreno sagrado, numa igreja ou capela. Consta que ainda hoje os mais antigos dão palpites sobre qual será a igreja da região que esconde o seu manto e sobre a própria identidade do Vampiro de Arruda dos Vinhos, que até hoje continua secreta.

BRUXAS

Lendas e lugares assustadores no Centro de Portugal

Em Proença-a-Nova (Beira Baixa) contam-se histórias de uma viúva que tinha fama de ser bruxa e vivia numa pequena povoação, daquelas onde todos se conhecem. Era bastante atraente, mas a sua fama afastava potenciais pretendentes, exceto um sapateiro na casa dos trintas, que decidiu tentar a sua sorte. Conheceu-a, envolveram-se, passaram a viver juntos. Quanto mais dias e semanas passavam, mais convencido ele ficava que se tratavam apenas de rumores mal-intencionados. Não havia nada de estranho no quotidiano da mulher. Exceto um detalhe que, de tão recorrente, se tornou notório. De vez em quando ela levava-lhe um chá à cama; ele bebia e caia num sono profundo, só acordava na manhã seguinte. Ele apercebeu-se que isso acontecia em noites de lua cheia. Numa dessas noites, não resistiu à curiosidade. Simulou que tinha bebido o chá e adormecido, esperou alguns minutos e percorreu o corredor devagarinho, na direção de um quarto com uma porta entreaberta. Espreitou e viu, assombrado, a mulher nua, a besuntar o corpo com uma espécie de um óleo de ervas. Pouco depois, ela abriu a janela e recitou em voz alta ao céu escuro: “Voa voa por cima de toda a folha”. Começou a levitar, lentamente, e voou. Ainda incrédulo e de forma instintiva, decidiu segui-la. Passou óleo no corpo e disse: “Voa voa por baixo de toda a folha”. Saiu disparado pela janela e, horrorizado, constatou o erro quando começou a passar por baixo de silvas e arbustos. Chegou a casa todo arranhado, deitou-se, não voltou a tocar no assunto e, dizem, passou a beber sempre o chá nas noites de luar.

Na vila de Riachos, em Torres Novas (Médio Tejo), há um cruzamento ao qual chamam “quatro estradas”, onde – diz-se por lá – já foram avistadas bruxas durante a noite. Um dos relatos mais conhecidos é o de um antigo trabalhador da CP. Numa noite de inverno, estava a atravessar de bicicleta as ruas desertas da vila, de regresso a casa, após ter feito algumas compras na mercearia e ter bebido uns copos na tasca. No referido cruzamento, apareceram-lhe três bruxas, que o rodearam aos saltos e às gargalhadas enquanto gritavam: “Cheiras bem, cheiras a café e do bom!”. Após alguns instantes, desapareceram de repente, com os seus risos a ecoar pelas ruas escuras. Confuso, ele continuou a pedalar alguns minutos, até passar no cruzamento seguinte, onde, estupefacto, viu as três à sua espera, com a mesma conversa: “Tu levas aí café do bom”. Os gritos e as gargalhadas arrepiantes acompanharam-no mais alguns metros, até se transformarem numa ameaça: “Vamos embora, mas se tu nos descobres, da próxima vez arranhamos-te e esfarrapamos-te até à morte”. Consta que ele nunca tentou descobrir quem eram e, como tal, nunca mais as voltou a ver.

Lendas e lugares assustadores no Centro de Portugal

As margens do Mondego na zona de Reconquinho, em Penacova (Região de Coimbra), terão testemunhado um episódio incrível que ainda hoje assombra o imaginário dos locais. Essa zona muito era evitada durante a noite, pois dizia-se que era um ponto de encontro de um grupo de bruxas locais, que dançavam junto às águas banhadas pelo luar.
Numa dessas noites, decidiram ir mais longe! Terão soltado as amarras a uma velha barca serrana e, recorrendo a “artes de bruxedo”, enfeitiçaram-na, habilitando-a a navegar até à Índia, numa só noite de Lua Cheia.
Entusiasmadas com a viagem, ignoraram o barqueiro, que dormia aninhado na proa da barca e só acordou a meio da viagem, já em alto mar, aterrorizado com o tamanho das ondas. Permaneceu em silêncio, a fazer-se adormecido e nem quando alcançaram a praia indiana, onde as bruxas “bailaram de uma forma tão fantástica e jamais vista”, se atreveu a acusar a sua presença, observando tudo à socapa.

De regresso a Reconquinho, simulou o sono até aos primeiros raios de sol. Já sozinho, correu até à vila onde relatou o incrível acontecimento a todos que encontrava pelo caminho. Como era de esperar, ninguém acreditava nele. Até que foi abordado por uma jovem mulher, com um capuz acastanhado a cobrir os cabelos, que o avisou: “Se dizes os nossos nomes, matamos-te”. Nunca o fez e respeitou também a segunda ameaça: “Nunca mais metas os pés no Reconquinho à noite!”.

Lendas e lugares assustadores no Centro de Portugal

Na aldeia de Tinalhas, Castelo Branco (Beira Baixa), ainda hoje se contam histórias sobre bandos de bruxas que costumavam sair de casa à meia-noite, para dançar nuas nos cruzamentos das ruas. Bebiam uma poção que as tornava invisíveis, por isso havia imensos relatos de sons misteriosos e vozes e risos que não se sabia de onde vinham. No entanto, o efeito da poção só durava uma hora. Caso não regressassem a casa antes da badalada da uma da madrugada no relógio da torre da aldeia, perdiam a invisibilidade. Reza uma lenda local que numa dessas noites, uma bruxa perdeu a noção do tempo e deambulou nua pelas ruas, até esbarrar num homem que a reconheceu: era sua tia. Ela ter-lhe-á pedido desculpa, mas também o avisou: “se me denunciares, tenho de te matar”.

Há muitos topónimos que, supostamente, têm origem em locais que se constavam serem palco de reuniões e celebrações noctívagas de bruxas, como o Terreiro das Bruxas, que existe tanto no Sabugal, como na Lousã, ou na Portela das bruxas, em Mação.

ASSOMBRAÇÕES

Lendas e lugares assustadores no Centro de Portugal

Junto à aldeia de Barco, na Covilhã (Serra da Estrela), ergue-se a Serra da Argemela. O seu nome esconde um mistério que ainda hoje assusta alguns locais. A origem da lenda tem vários séculos. A única filha de um rei godo foi capturada pelos mouros e aprisionada num castelo que existia no topo da montanha. Após alguns dias de reclusão, foi acorrentada a uma árvore do bosque, à mercê do frio e dos animais selvagens. Os seus gemidos ecoavam por toda a serra, que o pai percorreu durante dias a fio, sem nunca a conseguir encontrar. Só se ouviam os gemidos, que ninguém percebia bem de onde vinham. “No ar, geme ela”, terá dito o rei, desgostoso. A expressão terá dado origem ao nome da serra. Ainda hoje, há quem garanta que os gemidos se ouvem nas noites de vento na serra da Argemela, num eco aterrador que se prolonga pelas suas árvores, minas, grutas e poços.

Na aldeia de Lagarinhos, em Gouveia (Serra da Estrela) existe uma casa inacabada há décadas. Os locais dizem que todos os que tentam terminá-la acabam mortos. Chamam-lhe a “casa do medo”. Consta que era o sonho de um velho agricultor, partilhado com os filhos no leito da morte: Que construíssem naquele local uma grande casa, à medida do que ele tinha alcançado em vida. Os herdeiros tentaram cumprir esse desejo, mas não conseguiram por falta de dinheiro, por isso deixaram a casa sem telhado, nem acabamentos interiores e exteriores. Desde então, já houve “donos e mais donos”, mas nenhum conseguiu concluir a obra, “pois a morte nunca demorava muito a bater-lhe à porta”, conta uma habitante local, a Dona Jacinta.
Atualmente, é utilizada como curral, celeiro e arrumo de alfaias agrícolas pela atual proprietária, que não parece ter vontade de terminar a construção.

Casa do medo_ José Fidalgo
Créditos: José Fidalgo

Em Ovar (Ria de Aveiro) há uma casa que os entusiastas do paranormal consideram “uma das mais assombradas do país”. Chamam-lhe a “Casa Amarela de Ovar” e há imensos relatos de fenómenos estranhos que lá terão ocorrido, desde vultos e sombras misteriosas que pairam nas suas divisões, sons e vozes que ecoam pelos quartos vazios, interferências com aparelhos eletrónicos ou mecânicos, a mudanças súbitas e drásticas de temperatura. Há quem diga que pertenceu um homem que lá terá matado a filha e o namorado, suicidando-se de seguida. Outros, dizem que pertenceu a um empresário que terá perdido a casa por causa de dívidas e ter-se-á suicidado lá dentro, jurando que “mais ninguém iria ficar com a casa”. O edifício está abandonado há décadas e consta que nem os residentes mais antigos da rua se lembram de a ver habitada por alguém. 

Lendas e lugares assustadores no Centro de Portugal

O Castelo de Montemor-o-Velho (Região de Coimbra) foi palco de um alegado fenómeno paranormal que até hoje não tem explicação. Foi em 2003, durante as gravações da novela “O Teu Olhar”, que estavam a decorrer na igreja do castelo. Subitamente, todos os aparelhos eletrónicos deixaram de funcionar. Nesse instante, segundos relatos da equipa de produção, vários atores sentiram-se mal e uma das atrizes foi particularmente afetada, tendo “ficado com voz de homem”, “vomitado sangue” e terão sido necessárias “várias pessoas para a segurar”. Seguiram-se momentos de aflição e pânico entre a equipa e foi chamado ao local um padre, o pároco de Montemor-o-Velho.

A título de curiosidade, refira-se que foi nesta igreja – Santa Maria de Alçáçova – que, em meados do século XIV, D. Afonso IV reuniu com os seus conselheiros e decidiu executar Inês de Castro. 

Igreja de Santa Maria da Alcáçova Castelo de Montemor o Velho_Rui Ornelas
Créditos: Rui Ornelas

OUTRAS CRIATURAS

Artigo Lendas e lugares assustadores no Centro de Portugal

No topo da Serra da Estrela (Serra da Estrela) existe uma lagoa de águas profundas e sombrias que ocultam imensas lendas. Chama-se a Lagoa Escura e dizem que nas suas profundezas vive um ser monstruoso: o “Monstro Chavelhudo”, que arrasta para o fundo todos aqueles que se atreverem a banhar nas suas águas. Histórias sobre a sua silhueta medonha a emergir na lagoa são contadas de geração em geração há séculos. Diz-se também que a lagoa não tem fundo e que está ligada ao mar. Há quem jure que nas noites de tempestade aparecem lá monstros marinhos ou destroços de navios naufragados. Curiosamente, a reputação misteriosa desta lagoa chegou aos ouvidos de Herman Melville, escritor americano e autor de “Moby Dick” (1851). Nesse clássico da literatura há uma referência à Lagoa Escura: O seu fundo “guarda as carcaças dos velhos baleeiros naufragados”, que ali terão chegado por uma “misteriosa ligação subterrânea ao mar”.

Lagoa comprida e escura world places
Créditos: World Places

Em Peniche (Oeste), há uma história aterradora que os pescadores contam há séculos. Estejam em terra ou no mar, é muito comum que a “Menina de Peniche” se torne tema de conversa e que alguém fique arrepiado ao conhecer a história da sereia triste e vingativa que vive na Gruta do Carreiro do Cabo. Hoje, é motivo de medo, mas não terá sido sempre assim. Segundo a lenda, trata-se de uma menina local, muito bela e simpática, que sempre tivera uma relação especial e natural com o mar. Terá nascido na praia e na praia morreu, com um desgosto de amor. Desde então, o seu vulto aparece nas noites de mar sereno, entre a meia-noite e duas da madrugada, sentada num rochedo na Gruta do Carreiro do Cabo, a cantar belas e irresistíveis melodias, com uma voz doce e harmoniosa que “encanta qualquer um”.
Quando um homem cede a esse encanto e se aproxima – garantem – a expressão dela muda e solta um grito ameaçador que enfurece as ondas do mar, que arrastam a vítima para o fundo, de forma a tornar-se na companhia que lhe faltou em vida.

Perto da Praia Azul, em Torres Vedras (Oeste), existia uma proeminente quinta chamada Quinta da Areia. Conta-se que, há algumas décadas, num dia de tempestade, o mar galgou o areal e chegou aos terrenos da quinta. Quando a água recuou, deixou ao descoberto duas sereias, mãe e filha. Os trabalhadores, assustados, terão feito uma fogueira e queimado a sereia mais nova. A mãe, enfurecida, terá amaldiçoado a propriedade e afirmado que os seus donos (e as gerações futuras) nunca mais voltariam a ter sorte nesse sítio. A quinta acabou por falir, foi abandonada e vendida, sucessivamente. Hoje, está em ruínas.

Lendas e lugares assustadores no Centro de Portugal

Na aldeia de Carvalhal dos Ramalhos, na Sertã (Médio Tejo), ainda hoje se contam histórias sobre um cruzamento onde, todas as noites, uma mulher deixava comida para o diabo. Tudo terá começado numa tarde em que o seu marido estava a debulhar milho numa eira. No final, quando pretendia limpar a eira, não havia vento suficiente para o auxiliar. Ansioso por terminar o serviço e regressar a casa, terá dito: “Diabo, mande vento para limpar o trigo da eira que eu dar-lhe-ei um jantar”. E, subitamente, levantou-se uma ventania. O homem sorriu com a coincidência, acabou o serviço e nunca mais pensou naquilo. Alguns anos depois, morreu. Na noite após o funeral, o seu fantasma apareceu à mulher e suplicou que a viúva o ajudasse a pagar a promessa que ele nunca cumprira. Ela teria de levar todas as noites, à meia-noite em ponto, o jantar a um cruzamento da aldeia. Metia uma toalha no chão, com um prato de batatas guisadas com carne, acompanhado de pão e uma garrafa de vinho. No dia seguinte, o prato estava sempre limpo. A viúva terá mantido esse hábito até ao fim dos seus dias.

Lendas e lugares assustadores no Centro de Portugal

Em Pombal (Leiria) há uma velha lenda que remonta ao século XII e que ainda hoje mexe com o imaginário local. Nos tempos da reconquista, conta-se que um mouro chamado Al Pal Omar tinha um palácio subterrâneo no topo do monte mais alto da povoação. Dotado de grande beleza física, “com olhos cor de esmeralda e sorriso de pérola”, o mouro seduzia as mais belas “filhas casadouras” da região com “meigas artes de amor”, levando-as para o vasto harém que mantinha no seu palácio. Preocupados, os populares pediram ajuda aos Cavaleiros do Templo, que aprisionaram o mouro, trancando a entrada do palácio e contruindo uma fortaleza de pedra em cima: O Castelo de Pombal.

Ainda hoje, há quem diga que as mulheres bonitas que forem sozinhas ao castelo, depois do entardecer, arriscam-se a ouvir uma voz misteriosa que lhes diz:

“Menina vem ter comigo,
Vem meu encanto quebrar,
Sou um mouro teu amigo
Que te quer namorar”.

Se sucumbirem ao encantamento do Al Pal Omar, verão as suas relações – presentes ou futuras – arruinadas. Por isso é que muitas pombalenses só visitam o castelo na companhia dos namorados/maridos.

Na Pampilhosa da Serra (Região de Coimbra), há relatos de uma estranha criatura que vive na floresta junto à aldeia do Pessegueiro. Chamam-lhe o “Homem Galho” e descrevem-no como um ser humanoide extremamente alto e magro, cujos membros se assemelham a galhos de árvores, tendo o rosto parcialmente coberto por musgo. Quem o viu, afirma que ele fica perplexo a olhar para as pessoas durante alguns instantes, antes de mergulhar na floresta, ouvindo-se sempre um ruído estranho, uma espécie de “arrastar pesado da vegetação ”. O primeiro relato remonta aos anos 60 e o último avistamento terá sido em 2007.

Segundo um habitante local, na aldeia há quem lhe atribua outras designações, mas todos parecem concordar que naquela floresta existe algo e que não é humano.

Lendas e lugares assustadores no Centro de Portugal

A Serra da Gardunha é um dos locais mais misteriosos de Portugal. Para além de ser considerado o epicentro nacional de avistamentos OVNI, é uma montanha envolta em misticismo e rica em histórias enigmáticas que alimentam lendas locais. E uma dessas lendas espalhou-se por muitas aldeias das Beiras, desde Monsanto e Penha Garcia (Idanha-a-Nova), a Casal da Serra (Castelo Branco), a diversas povoações, tão idílicas quanto isoladas, do Fundão.

Os habitantes dizem que nas noites de lua nova há duas figuras sobrenaturais que percorrem os caminhos que ligam as aldeias. Chamam-lhes a Boa-Hora e a Má-Hora. Ambas são figuras extremamente altas, com tronco e membros mais extensos do que os de um ser humano, e caminham em silêncio nos trilhos noturnos. A Boa-Hora é toda branca e surge por volta da meia-noite, sendo a sua presença uma espécie de aviso para as pessoas se porem a salvo já que, atrás de si, vem sempre a Má-Hora, que traz consigo um prenúncio de tudo o que é mau, desde azares, infelicidade, infortúnios ou mesmo a morte.

São muitos os beirões que “juram a pés juntos” já terem visto estas duas entidades. Na aldeia de Casal da Serra, todos já ouviram o relato apavorado de um dos habitantes que afirma ter sido perseguido pela Má-hora até à sua casa, onde terá permanecido em choque, sem se atrever a sair durante vários dias.

TRILHOS MALDITOS

Lendas e lugares assustadores no Centro de Portugal

Na vila de Alcains, em Castelo Branco, há uma estrada que os habitantes mais antigos costumavam evitar, especialmente à noite. Chamavam-lhe a “estrada do cruzeiro ensombrado” e diziam que os que arriscavam passar por lá de madrugada ouviam sons arrepiantes entre a escuridão, como correntes a arrastar e gemidos desesperados. Na vila todos “sabiam” a origem daquele fenómeno aterrador. Constava-se que era a “alma penada” de um jovem que se tinha enforcado com correntes no cruzeiro, após sofrer um desgosto de amor. 

Na aldeia de Manhouce, em São Pedro do Sul (Viseu Dão Lafões), havia uma estalagem que era muito utilizada pelos mercadores que recorriam à antiga via romana para viajar a cavalo entre Porto e Viseu. Depois desta paragem, a próxima povoação era Bustarenga. A estrada que atravessa a floresta e liga estes dois locais está, muitos garantem, assombrada.

Há relatos de barulhos estranhos e vultos misteriosos que se movimentam no bosque noturno. No entanto, há uma possível explicação para este mistério. No tempo dessas travessias, terá existido um bando de salteadores que tinha dois esconderijos ao longo dessa estrada e que usava vários estratagemas para assustar os viajantes e roubar as suas cargas. Esses dois esconderijos ainda existem e são chamados de Cova do Ladrão e Outeiro de Alcaranta.

Lendas e lugares assustadores no Centro de Portugal

No lugar de Vale das Balsas, em Proença-a-Nova (Beira Baixa), há muitos anos havia um caminho florestal que era temido por todos. Estava ladeado por árvores altas, cujas copas deixavam “quase tudo às escuras” e a população dizia que “havia lá medos”. Nessa altura, um miúdo que vivia na aldeia de Espinho Pequeno tinha de percorrer todos os dias esse caminho sozinho para ir para a escola em Proença-a-Nova. O percurso era longo e já era de noite quando ele regressava a casa. Chorava todos os dias e chegou mesmo a pedir aos pais para desistir da escola. 

Numa dessas noites, apareceu-lhe no caminho uma senhora vestida de branco, que lhe pediu para ter coragem e para continuar a ir às aulas, pois quando fosse adulto seria um “padre muito virtuoso”. Surpreendido, ele interiorizou o pedido. Nunca mais voltou a ter medo, tornou-se um excelente aluno e prometeu que, se algum dia viesse a ser padre, iria mandar construir um arco para perpetuar essa aparição. E essa é a história do Arco da Moita. 

Junto à aldeia de Zebreira, perto de Idanha-a-Nova, há um sítio por onde ninguém passa. Chamam-lhe o caminho da “Ovelha do Carreiro” e dizem estar enfeitiçado por uma moura encantada. Contam que a moura gosta de espalhar o seu tesouro algures no trilho, deixando-o a brilhar ao sol, enquanto fica escondida, sentada numa pedra a escovar os longos cabelos negros. Se alguém ver o ouro, as joias e as pedras preciosas a reluzir e cair da armadilha de se aproximar, é de imediato hipnotizado e condenado ao encantamento eterno com a moura na Ovelha do Carreiro.

O medo e o fascínio estão à vossa espera, no Centro de Portugal!