Região repleta de vida e de mistérios, o Centro de Portugal esconde em si lendas, histórias e milagres do tempo em que aqui viviam outrora, outras gentes, visitantes de um tempo antigo que convém e queremos reavivar.

No nosso artigo “Parques à Beira-rio para descobrir no Centro de Portugal”, realçamos a importância dos rios onde perto ou à volta dos quais se fixaram os primeiros povoados, cresceram aldeias até se transformarem em cidades, foram construídos castelos, muralhas e fortificações, nasceram Mosteiros, Conventos e Universidades.

Porque aí floresceram as primeiras civilizações e culturas, propomos-lhe que se deixe submergir por contos seculares contados de boca em boca, embalados pelos cursos de águas doces e límpidas, que correm serenamente. Contam histórias de amores perdidos ou ganhos, criam santos, imortalizaram reis e rainhas e batizam terras.

Deposite no Centro de Portugal toda a sua crença e percorra mais um caminho da nossa terra…

RIA DE AVEIRO | ALBERGARIA-A-VELHA
Lenda “A Terra do Anjo”

Sabe qual é a Terra do Anjo? Não? Vamos então conhecer esta tão famosa lenda.
Pela margem direita do Vouga, junto à cidade de Aveiro, há muitos anos, existia uma pequena aldeia de pescadores que trabalhava nas águas do rio. Foi nesta comunidade que um homem, que nunca casara, vivia no sofrimento de não ter um filho a quem ensinar a sua arte e fosse sua companhia no fim da vida.

A lenda não nos indica nome, apenas que se tratava de uma pessoa extremamente devota a Nossa Senhora. Assim, constantemente lhe dirigia orações, por entre as quais lhe pedia um filho. Muitas vezes, desencantado com a falta de resposta de Nossa Senhora, que não ouvia a sua prece, dirigia as suas palavras ao rio. E uma manhã, levando o seu barco de um lado para o outro, o pescador viu uma caixotinha a boiar nas águas, e dentro dela chorava uma criança. Doido de contentamento, agradeceu a Nossa Senhora, interrogando-a sobre o que ela queria em troca, naturalmente ela não lhe respondeu.

Assim, o rapaz foi crescendo, aprendendo a vida com o velho pescador, que arranjou outro ânimo para encarar a vida. A felicidade da família era evidente! Porém, a partir de determinada altura, uma nuvem cinzenta começou a pairar nos olhos límpidos do jovem rapaz. É que ele queria saber como é que teria ido ali parar. Quem era a sua mãe? E seu pai?

A história do seu aparecimento nas águas, contada pelo velho pescador, não o consolava. Ele queria ser como os outros, mas não conseguia. Num esforço para desanuviar a existência do seu rapaz, o velho pescador do Vouga foi com ele à cidade e foi falar com um padre que tinha fama de muito sabedor. No entanto há casos em que os saberes não servem para nada. E ao padre apenas lhe valeu certa sabedoria no trato, mandando para casa os dois, recomendando-lhes que pensassem noutra coisa, referindo que muitas vezes são insondáveis os desígnios do Altíssimo…

Certo dia soltou-se uma epidemia que começou a dizimar a população das margens do Vouga. O rapaz, mostrando a generosidade aprendida com o seu velho pai, atendeu aos doentes. Porém, por desgraça, ele próprio foi apanhado pela terrível doença. Prostrado no leito, a seu lado tinha o velho a lamentar-se de o ver naquele estado, que piorava em cada dia. E o pai voltou-se de novo para Nossa Senhora, implorando-lhe que lhe salvasse o filho. E à voz do “valei-me!”, entrou no quarto uma mulher envolta em neve, dizendo: “Aqui estou”. Era Nossa Senhora das Neves, dizendo que vinha buscar o rapaz para a sua corte de anjos.

Assim como o dera, o levava para um lugar de glória, reservando-lhe a função de anjo da guarda daquela terra. E que terra é essa? Angeja.

REGIÃO DE COIMBRA | COIMBRA
Lenda do Rio Mondego

Reza a Lenda que em tempos recuados, na Idade Média, vivia junto aos montes Hermínios, numa vasta planície, um Rei godo, muito amado pelo seu povo. Houvera de sua mulher uma linda menina, branca como luar de Janeiro, cintilante como as estrelas douradas a luzir no firmamento nas noites límpidas e puras. “É branca como as estrelas, diziam as aias que a vestiam.” Os pais da princesinha decidiram chamá-la de Estrela. No entanto, com tanta beleza, as estrelinhas, suas irmãs, a invejavam por tamanha beleza…

Na corte havia um cavaleiro esbelto chamado D. Diego que gostava muito da princesinha. Passeavam por longas horas e sempre juntos. Quando se inicia a guerra contra os Árabes, D. Diego partiu com o Rei. Desolada, cheia de saudades, a chorar seu cavaleiro ausente, Estrela resolveu subir aos altos montes na esperança de avistar D. Diego no seu regresso, em seu cavalo branco. Dos cerros íngremes, tão altos que quase o céu se tocava com a mão, a linda Estrela espraiava o olhar na distância infinda, mas do seu cavaleiro ausente não havia sinal…

Em tamanha tristeza, chamava em voz alta: “Mon-Diego! Mon-Diego! Porque não vens?

As rochas negras ecoavam o seu clamor “Mon-Diego! Mon-Diego!

Passaram dias, noites de infindável angústia durante os quais os olhos da princesinha eram duas fontes de lágrimas de água pura a correr. A água tanta que dos seus olhos derramaram que ela foi correndo, serra abaixo…”Mon-Diego! Mon-Diego!

E, por isso, deram esse nome ao rio que ali se formou das lágrimas da princesinha e que é nem mais nem menos que o nosso manso Mondego.


VISEU DÃO LAFÕES | SÃO PEDRO DO SUL
Lenda da Ponte do Cunhedo

Desde que foi feito a Ponte do Cunhedo sobre o Vouga, é muito simples a passagem do rio, não importa a estação do ano. Porém, esta lenda passa-se quando ainda não havia tal passagem, embora o convento de São Cristóvão já lá estivesse. Numa bela manhã de Junho, acompanhando a jornada do frade superior dessa pequena comunidade religiosa, que regressaria de uma viagem missionária, seguia na sua égua, acompanhando a margem direita do Vouga. Vai devagar, gostava daquele longo passeio que lhe proporcionara uma visita pastoral. Mas o tempo é que estava a mudar de aspeto conforme entravam as negruras da noite. O caudal do rio cresceu ameaçadoramente, arrastando tudo à sua frente, tendo a ponte sido levada na voragem.

A égua era fina, e o cavaleiro dava-lhe rédea solta, para lhe evitar constrangimento, mas ela parara e acenava com a cabeça, como a dizer ao frade que se segurasse bem que o pior ainda estava para vir. E daí a pouco o frade estava no convento quase sem dar por isso.

Estupefatos, os seus irmãos inquiriram-no por onde havia vindo, pois a ponte havia sido levada. Respondeu-lhes que se assim era, só ao seu burrito e a Deus podiam perguntar, pois que ele até viera a dormir sobre a montada e não dera por nada.

Este caso foi tido como um grande milagre que atribuíram às suas orações ao mártir São Cristovão que na sua época transportou o Menino Jesus aos ombros na passagem de um qualquer outro caudaloso rio. Não era só a sabedoria da Estrela a salvá-lo. No dia seguinte voltou ao sítio das poldras e, desmontando, ficou estarrecido, vendo claramente o perigo por que passara. Era tamanhos os estragos que a tempestade da véspera fizera! De repente sentiu um frémito percorrer-lhe o corpo, encostou-se ao pescoço da égua e apercebeu-se que o rio já não era o Vouga, mas outro, muito mais longo e profundo.


SERRA DA ESTRELA | MANTEIGAS
Lenda do Mondego, Alva e Zêzere


O Mondego, o Alva e o Zêzere, nascidos da mesma mãe, três amigos viviam tranquilos e alegres, em irmandade. Uma tarde, já quase de noite, envolveram-se em azeda conversa e lançaram desafios para romperem as prisões que os detinham e lançarem-se em corrida vertiginosa serra abaixo cujo objetivo seria o mar.

O Mondego, astuto, forte e madrugador, levantou-se cedo e começou a correr devagar para não fazer barulho e levantar suspeitas, desde as vizinhanças da Guarda, por Celorico, Gouveia, Manteigas, Canas de Senhorim e dirigiu-se depois de ter robustecido com a ajuda dos colegas que vieram cumprimenta-lo à “Raiva” na direção de Coimbra depois de ter atravessado as Beiras.

O Zêzere que também estava alerta, moveu-se ao mesmo tempo que o Mondego, foi em direção a Manteigas pelo vale abaixo, passou pelos terrenos da Guarda, correu para o Fundão, desnorteou obliquando para Pedrogão Grande, depois de ter cruzado três províncias e já cansado de caminhar 40 léguas abraçou-se ao Tejo em Constância para poder chegar ao mar.

O Alva, dorminhoco e poeta, demorou-se contemplando as estrelas, mais do que era prudente, adormeceu confiando no seu génio. Quando despertou estremunhado, em sobressalto, avistou os colegas a correr já quase a perder de vista. O Alva atirou consigo de roldão pelos campos fora, rasgou furiosamente montanhas e rochedos, galgou despenhadeiros, bradou vingança temerosa, rugiu, e quando julgou que estava a dois passos do triunfo foi esbarrar no seu principal antagonista o Mondego que lá ia, há várias horas, pelos campos de Coimbra. O Alva atirou-se ao adversário a ver se o lançava fora do seu leito, espumou de “raiva” mas o outro que deslizava sereno e forte riu-se e…engoliu-o de um trago. Chama-se raiva a este local onde o Alva desagua no Mondego em memória à sua atitude.


MÉDIO TEJO | ALCANENA
Lenda “Os Olhos de Água”

Há muitos anos atrás era normal um pai, rei, impor um casamento com o dever deste se cumprir. Mesmo que a filha não gostasse do príncipe que lhe estaria reservado!

Ora a princesa desta lenda apaixonara-se por um rapaz pobre. De tal forma que, quando o pai lhe impôs o casamento com um jovem príncipe, rico, a jovem princesa fugiu de casa, indo abrigar-se numas grutas que há junto á nascente do rio Alviela.

Porém, o rei, hábil, não mandou soldados atrás dela. O rei decidiu encomendar o trabalho a uma bruxa, que não tardou a conseguir localizá-la. Embora não regressasse ao palácio, a princesa todos os dias era procurada pela tal bruxa que lhe acenava com outros pretendentes que o pai tinha para ela.

Desolada e contrariada, a princesa não queria casar com nenhum príncipe. Foi uma discussão que um dia teve fim.

Seu pai, o rei, furioso com as contrariedades da princesa, mandou o nome do que seria o derradeiro pretendente. Tratava-se de um boi encantado, na forma de um belo rapaz! E a princesa uma vez mais recusou. Queria o seu namorado pobre e mais nenhum. Logo a seguir, o rei mandou à filha um novo recado: “Como não aceitas nenhum dos pretendentes que para ti arranjei, e a possibilidade de seres rainha do meu condado, viverás eternamente nessas grutas, rodeada de bois e de vacas e as tuas lágrimas serão tantas, e tão grossas que os teus olhos se tornarão enormes e para sempre essas lágrimas regarão as terras do Alviela e darão de beber a animais e pessoas”.

Hoje em dia, junto à nascente do Alviela, nos Olhos de água, poderá conhecer o local desta magnífica história.


REGIÃO DE LEIRIA | LEIRIA E BATALHA
Lenda dos Rios Liz e Lena

Segundo reza a lenda, vivia em Cortes, perto de Leiria, um formoso rapaz chamado Liz que estava muito apaixonado por uma bela donzela chamada Lena. Encontravam-se nos bailes e festas e assim começaram, secretamente, a namorar.

Leiria, muito apaixonada por Liz, cada vez que os via juntos jurava vingar-se. O ciúme corroeu tanto o seu coração que um dia decidiu acabar com a relação dos dois amantes. Atraiu Lena até Porto de Mós e matou-a sem só nem piedade. Lena transformou-se em rio na esperança que o seu amado um dia a reconhecesse.

Liz, quando soube do sucedido ficou muito desgostoso e chorou, chorou… e, suas lágrimas transformaram-se também em rio.

Leiria, querendo conservar o seu amado só para si, cresceu à sua volta como que a abraçá-lo. Mas o Liz que aspirava a liberdade como qualquer rio, conseguiu libertar-se dos seus braços. Um pouco mais abaixo, num cenário muito romântico de uma planície florida encontrou Lena e aí casaram felizes. E correram juntos para sempre a caminho do mar.

O amor verdadeiro consegue sempre vencer todas as dificuldades e barreiras que o tentem travar.

OESTE | ALCOBAÇA
Lenda dos Rios Alcoa e Baça

Há muito, muito tempo atrás existiu um par de namorados na região que se amavam muito, mas, eram ambos muito pobres. Estavam noivos e iam casar, nada os poderia separar.

Mas o rapaz tinha um defeito, era muito ganancioso e queria ser muito rico. Pela região passou um homem que procurando pessoas para trabalhar, aliciou o rapaz dizendo que só ele deixando aquele sítio, poderia ser muito rico. O rapaz como era muito ganancioso abandonou a noiva e a sua terra partindo em busca de mais dinheiro.

A rapariga sentindo-se abandonada teve um tão grande desgosto e chorou, chorou tanto que as suas lágrimas acabaram por formar um rio.

Tempos mais tarde o rapaz, arrependido, voltou à região e a chorar pediu que a rapariga o aceitasse de novo. A rapariga, como o amava muito, aceitou. E assim, conta a lenda que das lágrimas derramadas pelos dois jovens nasceram os dois rios que com os seus nomes foram batizados. Ela chamava-se Alcôa e ele chamava-se Baça. Desta forma lendária advém o nome de Alcobaça.

BEIRA BAIXA | VILA VELHA DE RÓDÃO
Lenda do Almourão

Andavam pai e filho à azeitona nas encostas do Almourão quando se lembraram do que tinham dito os mouros “Entre o Tejo e o Ocreza ficará a nossa maior riqueza”. Como na encosta do lado oposto batia o sol e este se refletia na água, deixando perceber o contorno de uma carroça, ambos pensaram que era de ouro e que decerto do tesouro dos mouros se tratava. Depressa pensaram em ir buscar o carrinho de ouro à ribeira.

Iam tão contentes que, já no cimo da encosta, disseram em voz bem alta “Quer Deus queira, quer Deus não queira, o carrinho já cá vai no cimo da barreira e amanhã já o levamos à feira.

Ao proferirem “Deus não queira” os bois e o carro começaram a recuar encosta abaixo, afundaram-se no poço do Almourão e ainda hoje lá estão. Ainda hoje a encosta tem o nome de Penha Amarela, devido ao fato de, naquele dia, o sol brilhava tanto e era tão amarelo que tudo parecia ouro.

Estas são narrativas fantasiosas fruto da imaginação popular que combinam factos reais e históricos, com acontecimentos fictícios e irreais? São! Fazem parte da nossa vasta tradição oral, e são um excelente ponto de partida para conhecer o Centro de Portugal!

Mantenha o Espírito.
O Centro de Portugal continua aqui, à sua espera!

(Artigo em permanente atualização. Agradecemos todos os contributos ou sugestões para: comunicacao@turismodocentro.pt)