A Lara tem 17 anos e quer encontrar um espaço memorável para imortalizar um beijo. A Elisa (29) procura uma atividade emocionante que sirva de palco para um desígnio especial. O Jaime (35) pretende uma estadia que abrigue uma das resoluções da sua entrada em 2021.

Três pessoas em busca de três planos românticos no Centro de Portugal. Um território repleto de natureza em estado puro, histórias de encantar, beleza paisagística, atividades entusiasmantes e espaços cheios de charme e identidade.

Esta abundância e diversidade tornam a tarefa particularmente desafiante.

“É um desafio dos bons”, pensa Lara, enquanto percorre a lista imensa de baloiços panorâmicos no Centro. Idealizou uma fotografia de um beijo e decidiu que essa seria a melhor das molduras. “Proporcionam imagens encantadoras porque despertam o imaginário, o entusiasmo, a criança sonhadora que há em nós”. Viu vários que gostou. Selecionou cinco e marcou as localizações no telemóvel. Nos próximos dias vai visitá-los e decidir qual deles irá testemunhar o momento ternurento.

A Elisa desliza o dedo pela fotografia no ecrã. Mais uma, de mais um plano divertido com o grupo de amigos. Já passou os olhos por várias. Uma com todos sentados na neve, a rir com os seus gorros coloridos de lã na cabeça, na primeira vez que experimentaram snowboard na Serra da Estrela; uma onde estão a atirar água uns aos outros com os remos, durante a descida do Rio Mondego em canoa numa manhã de verão; uma onde estão a simular poses amedrontadas, após terem atravessado uma mata “assombrada” numa experiência imersiva em Tomar; uma onde estão de pé, de costas e com os guarda-chuvas abertos, a observar o mar imensamente azul do Oeste numa tarde chuvosa. “Só porque sim”, pensa para si, a relembrar aquele momento espontâneo. Amplia um pouco mais a imagem, até só ficar visível um guarda-chuva lilás. Atrás dele há um rosto. O rosto de alguém com quem ela gostaria de ter algo mais do que apenas amizade.

Confortado, Jaime volta a fechar a mala. Não se esqueceu, o envelope está lá dentro. Regressa ao lugar do condutor, mas não liga a ignição, deixa-se ficar alguns instantes a pensar neste fim-de-semana que ameaça mudar a sua vida para sempre. Não foi fácil planeá-lo, imaginou-o de imensas formas e todas lhe pareciam adequadas. Num domo geodésico com jacuzzi com vista para as montanhas no Natura Glamping (Fundão); num palácio que parece saído de um conto de fadas, o Bussaco Palace Hotel (Luso); numa bolha translúcida no meio de um pequeno bosque e com vista para mil estrelas, no Moinho do Maneio (Penamacor); no palácio do século XVIII cujos extensos jardins são palco do imortal romance de Pedro e Inês, o Hotel Quinta das Lágrimas (Coimbra); a saborear um copo de vinho num piquenique nos jardins rodeados por vinhas e serras na Quinta de Lemos (Silgueiros – Viseu); a usufruir do aconchego rústico e elegante do Luz Houses (Fátima); a abrir uma janela com vista para os canais da “Veneza Portuguesa”, no Hotel Moliceiro (Aveiro); a nadar numa piscina exterior aquecida com vista para a neve, na Casa de São Lourenço (Manteigas); a adormecer embalado pela tranquilidade do Parque Natural das Serras D’Aire e Candeeiros, no Cooking and Nature Emotional Hotel (Porto de Mós); a acordar com a vista épica de um castelo medieval no topo de uma colina, através de uma janela que mais parece uma pintura pendurada na suíte das Casas do Côro (Marialva).

(Listagem completa do Alojamento no Centro de Portugal, aqui)

Todas estas opções seriam perfeitas para o seu plano.
No entanto, escolheu outra.
As histórias a dois são feitas de pequenos detalhes.
Um deles seria determinante.

A movimentação é a mesma de sempre. Pernas recolhidas no movimento para trás e esticadas para a frente. Era assim quando era pequena, nos baloiços da escola, é assim na idade (quase) adulta, nestas atrações erguidas com pedaços de madeira e envoltas em charme rústico. Enquanto baloiça, Lara fecha os olhos e imagina-se na infância. Quando os abre, mergulha numa paisagem única.

No Baloiço da Boa Vista (Pampilhosa da Serra) parecia estar a voar para cima da povoação; no Baloiço do Talegre (Alburitel, Ourém), parecia sobrevoar as copas das árvores; no Baloiço da Foz do Cabril (Castro Daire), sobrevoava o rio e no Baloiço da Ladeira (Nazaré), o mar. Devagarinho, Lara vai suspendendo o movimento até colocar os pés no chão.

“Vai ser aqui”. 

Desce do Baloiço Maria Gomes (Anadia), batizado com nome de casta de vinhos, observa o barril que faz de assento e o moinho branco e vermelho ao seu lado. Há uma simplicidade bucólica naquele enquadramento que a atrai.  A luz do entardecer debruçada sobre as árvores, o silêncio, as pás do moinho a rodar ao sabor do vento. 

“Definitivamente, vai ser aqui”.

Elisa clica na cruz e fecha o website do Beira Baixa Tour. Sente-se satisfeita com a sua opção. Pretendia um plano arrebatador, emocionante e inesquecível. Algo original, que fosse uma estreia, uma primeira vez. “Faz sentido, também é a primeira vez que lhe vou expressar o que sinto”, pensa, sorridente, enquanto se imagina, lado a lado, a sobrevoar as planícies da Beira Baixa num balão de ar quente. Não faz ideia das sensações que essa surpresa irá despertar, mas está ansiosa por vivê-las, acompanhadas por uma garrafa de vinho que vai levar para brindarem lá em cima, entre o azul do céu e o verde das paisagens.

Jaime estaciona junto às muralhas. “Então era este o grande segredo?”, pergunta ela, sorridente. “Uma escapadinha no tempo até uma vila medieval?”. Jaime sorri. A conversa fluiu, animada, durante toda a viagem, desde que a namorada entrou no carro. Estão juntos há oito anos e tem sido sempre assim. “Passar a noite numa povoação abrigada pelas muralhas de um castelo. Not bad, not bad at all…”, diz ela, entusiasmada, enquanto arrastam os trolleys pelas calçadas antigas das ruas de Óbidos. Ele volta a sorrir. Não foi esse o motivo. Ambos são apaixonados por livros e Óbidos é a Cidade Criativa da Literatura da UNESCO. Nas suas ruas é possível encontrar desde antigas igrejas a adegas convertidas em livrarias. O hotel que ele escolheu – The Literary Man – é uma ode à literatura, com 40 mil livros a fazer parte não só da decoração, como da sua identidade. Exploram os seus espaços, após o check-in. Ela fica encantada com o gin bar, com as suas estantes recheadas de clássicos, do chão até ao teto, com as suas mesas rústicas de madeira e as bebidas com nomes de escritores. “O plano está a correr de feição”, pensa ele.

Saem, visitam a vila.

Param num antigo quartel de bombeiros convertido num mercado biológico onde fruta, legumes e outros produtos endógenos são vendidos juntamente com milhares de livros, amontoados em caixas de madeira (Livraria do Mercado Biológico). A paragem não foi inocente. Ele sabia que ela ia ficar deliciada com o espaço e tão entretida a explorá-lo que nem ia dar muita relevância à desculpa esfarrapada que ele deu para se ausentar uns instantes. Em passo acelerado, ou mesmo a correr, percorre os 300 metros até o hotel.

Lara sai do carro, desmonta o tripé e arma-o, juntamente com o resto do equipamento fotográfico, a poucos metros do baloiço Maria Gomes. Ainda é cedo, ficam a conversar durante algum tempo, até o fim-de-tarde trazer a “luz dourada” dos fotógrafos. “Está na hora, podem sentar-se lá”. Escondido atrás do visor da máquina, o seu olhar torna-se líquido, enquanto contempla o rosto dos avós. Lado a lado, como sempre estiveram durante toda uma vida que abraçaram juntos. Inspiram-na ao verem sempre beleza nos momentos de maior simplicidade; e também pelo condão obstinado com que transformam a dificuldade em algo positivo. Como o moinho ao lado deles, que todos os dias enfrenta o vento e o transforma em sustento.

O beijo surge no enquadramento e ela sorri com o “click”.  É a sua prenda para as bodas de ouro.

O balão começa a flutuar devagarinho. O chão cada vez mais distante, o entusiasmo cada vez mais alto. “Uau, estamos a voar!”. É um voo tranquilo, incrivelmente silencioso. Sobem até as nuvens parecerem estar ao alcance do seu toque. Lá em baixo, há montanhas, há campos, há rios. Por todo o lado para onde olham, há paisagem. Paisagem que, vista dali, parece do tamanho do mundo. A garrafa já foi aberta, brindes já foram feitos. À amizade, à espontaneidade, a uma vida enriquecida por experiências arrebatadoras.

Encorajada pelo cálice de branco do Dão, Elisa diz: “A paisagem, vista desta perspetiva, é tão diferente, não é? Parece ganhar um novo significado”. Viu-lhe emoção, cumplicidade, reciprocidade no olhar. Por isso acrescentou: “Talvez seja assim connosco”. A amiga sorriu, um sorriso tão quente como o fogo que aquece o ar que eleva o balão, tão encorajador como o vinho. “Hummm… estás a dizer-me que queres elevar a nossa amizade a outro patamar?”.

Riram-se, aproximaram-se, e o beijo disse-lhes que já eram namoradas.

Jaime pousa o copo na mesa e observa o olhar deslumbrado dela, que percorre cada estante do bar do The Literary Man.

“Estás a ver aquela estante que tem uma escada de madeira ao lado?”.

“Sim”, responde ela, arrastando o “i” em tom desconfiado. “E se eu te disser que se fores lá, subires os degraus até à prateleira mais alta e procurares um livro que te é familiar, ao abri-lo, algures entre as páginas, está uma surpresa para ti?”.

“Estás a brincar, isto está cheio de gente…”, exclama ela, a sorrir. Ele sorri de volta, sem dizer nada.

Ela levanta-se e ele observa-a de costas, a caminhar. Move-se como se estivesse num palco. Ambos também gostam de teatro. A sua peça preferida é “À espera de Godot”, de Samuel Beckett, onde dois personagens aguardam, indefinidamente junto a uma árvore, a chegada de alguém chamado Godot. Não sabem quem é, nem se vai chegar. No fundo, nem sabem bem porque esperam. Ele continua a contemplar a subtileza dos passos dela. Oito anos de caminhada. Conhece-lhe os gestos, as graças, os entusiasmos.

Por isso, sabe que ela vai subir aquela escada, percorrer todas as lombadas até encontrar uma cor-de-salmão, com o título da peça do Sr. Beckett gravado a negro, onde vai deparar com um envelope, em cujo interior está escrito: “Não vou esperar mais”. Sabe que, nesse momento, ela vai virar-se para ele, intrigada. E ele, mais uma vez, não vai dizer nada. Vai deixar que a pequena caixa que tem nas mãos, aberta e com um anel lá dentro, fale por si.

Desenhe o seu plano romântico no Centro de Portugal e colore esses momentos ao som da nossa playlist….