Fecho os olhos. Abro os braços. Quero abraçar o mundo.

Do alto da arriba, ouço a rebentação das ondas que quase tocam o céu e se espreguiçam deixando rastos de espuma, no extenso areal dourado.

É intenso e revigorante o cheiro da maresia, e os raios de sol, ainda que meio envergonhados, roçam docemente o meu rosto.

Ali ao lado, sinto a presença do farol imponente e previdente. Observa-me do alto do seu rochedo. Observa também os corpos que meses atrás, bronzeados e divertidos, mergulhavam no mar que convidava a banhos e brincadeiras de pequenos e graúdos, numa alegria frenética.
Os mesmos corpos que agora desfrutavam de um longo e relaxante passeio à beira mar a pé, no areal ou pelos passadiços, de patins, skate ou bicicleta, na ciclovia da Estrada Atlântica.

Abro os olhos.

Lá em baixo, por entre sorrisos eternamente apaixonados e olhares cúmplices, um casal de meia-idade está sentado lado a lado, juntinho, na areia fina da praia, tão fina que escorre das mãos por entre os dedos, qual memórias que o tempo nunca apagou.

Recordam alegres, episódios felizes vividos a dois, a três e depois a quatro. Recordam viagens em família e dias recheados de pura diversão.

“Lembras-te, quando fomos visitar todos aqueles monumentos?”, pergunta ela. 

“Foram férias fantásticas! Os raios de sol entravam pelos janelões rendilhados e refletiam-se nas paredes. O David e a Ana jogavam às escondidas por debaixo das pedras trabalhadas em capitel, sustentadas por arcos e abóbadas, muros e muralhas. Subiam e desciam escadas que escondiam cantos e recantos, histórias e lendas.
À noite, liamos-lhes contos desses mosteiros, castelos e centros históricos, e das suas personagens principais. Eram histórias de reis implacáveis e rainhas santas, de corajosos cavaleiros e formosas donzelas.”

“Lembro, sim! A Ana adorava a história do mouro Al Pal Omar de tez escura, dono de uns enormes e penetrantes olhos verdes esmeralda ou outras tantas narrativas com princesas de pele branca e longas tranças douradas”, respondeu ele.

“O Samuel preferia que lhe contássemos histórias da presença judaica em território português. Ele queria aprofundar o seu conhecimento pelas nossas origens e saber mais sobre o papel da nossa comunidade, ao longo dos séculos. Por isso fizemos a Rota das Judiarias. Visitámos Belmonte, Coimbra, Tomar, Covilhã, Trancoso, Guarda, Leiria e Torres Vedras. Fomos também a Alenquer, Castelo Branco e Celorico da Beira, Fornos de Algodres, Idanha-a-Nova, Linhares da Beira e Manteigas. Em alguns casos, mais do que uma vez” lembrou, ainda.

“Sim. Também fomos a Pinhel e Sabugal, Penamacor, Gouveia e Seia. E Almeida. O pólo museológico, Vilar Formoso – Fronteira da Paz, Memorial aos Refugiados e ao Cônsul Aristides de Sousa Mendes, é uma verdadeira história viva. Um lugar cheio de simbolismo.
Temos de voltar a Tomar! Ainda não conhecemos a Sinagoga depois de ter sido restaurada, também conhecida por Museu Luso-Hebraico de Abraão Zacuto”, acrescentou ela.

O telemóvel dela toca. O filho mais velho, exultante, anunciava a boa nova: “É uma menina. Vamos chamar-lhe Sara, como a pequena e corajosa personagem do filme “Elle s’appelait Sarah” ou “Sarah’s key”, em inglês, realizado por Gilles Paquet-Brenner. Também lhe vamos querer mostrar todos os lugares fascinantes com vestígios judaicos que tu e o pai nos mostraram, a mim e à mana, em pequenos e mais tarde, também, já adolescentes. Por falar nisso, falta-nos visitar o Centro Interpretativo Ephraim Bueno, em Figueira de Castelo Rodrigo!”, continuava ele radiante.

Acredito que nós somos o resultado da nossa história. Quando uma história é bem contada, não é esquecida e se for contada nos locais onde ocorreu, habitará para sempre em nós.

Fecho novamente os olhos.

O mar amansou. O cheiro da maresia mantém-se. Os raios de sol intensificam-se e remetem-me para dias bem passados do litoral ao interior, desde Esmoriz até à Praia de Santa Cruz, passando pela da Louçainha à do Lago Azul.

Recordo momentos especiais. Esta região habita em mim.

Conhecíamos como a palma das nossas mãos as Praias de Esmoriz, Cortegaça e Furadouro. Na Praia da Torreira, localizada entre a Ria de Aveiro e o mar, praticámos surf nas ondas prateadas e passeámos descontraidamente de bicicleta pela ciclovia, ao longo da praia.
Foram tantas as nossas travessias de ferryboat de São Jacinto ao Forte da Barra!
A Praia da Costa Nova e as suas casas típicas e coloridas às riscas faziam os nossos encantos.
E na Praia da Vagueira o que não faltavam eram motivos para entrar na água.
Foram muitos os dias de diversão passados na Praia de Mira, a única no mundo com bandeira azul desde 1987, ano da criação deste galardão.
Na magnífica Praia da Tocha, os miúdos adoravam passar horas a fio a fazer stand up paddle.

Logo que molhávamos o pé na Praia de Quiaios, as brincadeiras não cessavam mais. Com o fabuloso pano de fundo verdejante e montanhoso da Serra da Boa Viagem, o extenso areal assim o permitia.
Fizemos windsurf no mar calmo e vento forte da Praia de Buarcos, onde as condições para a prática deste desporto são simplesmente soberbas.
Na Figueira da Foz, apreciávamos os experientes surfistas a tentar apanhar a onda direita mais longa da Europa.


Na Praia do Osso da Baleia, encantavam-nos as dunas que criavam um ambiente de perfeita comunhão com a natureza.
Mais a sul, o rio Lis caprichoso, escolheu a Praia do Pedrógão para se estender e desaguar no oceano. Era também a nossa escolha para desfrutar de inesquecíveis fins de semana, tal como a Praia da Vieira.
Daqui, levávamos gratas recordações porque aqui, as cores eram sempre mais vivas. As cores dos chapéus de sol, dos toldos, das tintas frescas dos barcos em miniatura. E os sons? Os mais genuínos! Sons da faina e da lota, do ritmo do folclore, da animação das noites mornas.

A Praia de São Pedro de Moel sempre foi uma das nossas praias de eleição, pela sua identidade e encanto, pelas casas com ar aristocrático que combinam refinamento e equilíbrio, de um lado abraçadas pelas sombras e trilhos do Pinhal de Leiria, do outro, acariciada pelas ondas do mar.

Sinto saudades da Nazaré. Continuam a impressionar-me os rostos enrugados dos corajosos pescadores nazarenos que regressavam ao fim de um dia de faina, e era contagiante a alegria das mulheres que esperavam ansiosamente pelos seus maridos, namorados, filhos ou irmãos, no areal da praia. Depois, todos ajudavam a puxar as redes cheias de peixe brilhante a saltitar. Por muitas vezes que repetíssemos as viagens no ascensor da praia ao Sítio da Nazaré – e foram muitas, eram sempre uma experiência divertida pela viagem em si, mas também pela possibilidade de ouvir expressões exclusivas com articulação e sotaque nazareno.
“Três picnins (pequenos)? Ah querida tanto trabalho! O que vale é que não parecem ser stinêtas (crianças inquietas)”, soltava uma nazarena a olhar para mim, para logo rematar sem esperar resposta, desviando o olhar até ao mar: “Tá mêa praia alevantada” (Está meia praia levantada).
Quando chegávamos, dava gosto ver os seus trajes cuidados de sete saias e cores alegres a ondular ao som das chinelas, enérgicas, a descer a calçada.


Gostávamos de observar surfistas dos quatro cantos do mundo, ali junto ao Forte de São Miguel Arcanjo, os quais garantiram à Nazaré (Praia do Norte), o estatuto de referência a nível mundial de surf de ondas gigantes.

Tantos foram os castelos construídos no areal de São Martinho do Porto, praia de contornos perfeitos em forma de concha. Lembro-me que íamos de comboio, logo pela manhã.
O dia de canoagem e vela só era interrompido para o almoço e para o lanche onde não faltava nunca, uma grande e deliciosa fatia de pão de ló de Alfeizerão.

A Praia da Foz do Arelho, onde as águas da Lagoa de Óbidos confluem com as do Atlântico, também faziam as nossas delícias, mas era na Praia de Supertubos que passávamos mais tempo.  Sabíamos que o Rip Curl Pro Portugal acontecia aqui anualmente, no mês de outubro. E nós, tal como os entusiastas da modalidade dos quatro cantos do mundo, vínhamos apreciar as manobras dos melhores profissionais a dominar espetaculares ondas tubulares.
Pela costa de Peniche, sabíamos que havia no mínimo oito praias para a prática de surf, e ainda as praias do Baleal.

Pelo menos uma vez por ano, não perdíamos a oportunidade de passar um dia de sol e banhos nas Berlengas. Para além da sua praia paradisíaca, a Reserva Natural da Berlenga, classificada como Reserva da Biosfera pela UNESCO, tem uma fauna e flora incríveis.

Nas praias da Consolação, Areia Branca e Santa Cruz, praticámos kitesurfbodyboard até perder o fôlego.

Mas não só nas praias oceânicas molhámos o pé, aquecemos o corpo e lavámos a alma.

Da costa ao interior, entre vales e montanhas, também as praias fluviais eram os nossos destinos prediletos. Refúgios encantados e deslumbrantes, procurávamos suas águas cristalinas, ideais para revigorantes mergulhos.

Recordo-me perfeitamente da primeira praia fluvial que conhecemos todos juntos. Por brincadeira, escolhemos a que estava situada no ponto mais alto do país, a 1.437 metros de altitude: a Praia do Vale do Rossim, no coração da Serra da Estrela. Linda! Tal como a da Loriga, ali perto, situada num vale glaciário.

Na Praia Fluvial de Sangemil ou Caldas de Sangemil onde se situam também as Termas, banhávamos-nos nas águas transparentes do Rio Dão.

Nas margens do Rio Mondego, a Praia da Aldeia Viçosa também nos seduzia pelas suas águas límpidas, com direito a escorrega aquático.

Em Penacova, a Praia do Reconquinho oferecia-nos um areal extenso com zona de merendas e um parque de campismo onde pernoitávamos e contávamos as estrelas, sossegadamente, à beira do rio. 

Muitos mergulhos demos na Praia Fluvial de Sete Fontes, com águas serenas e um parque de merendas, bem como, nas nascentes dos Olhos de Fervença.

Éramos uns sonhadores com veia de aventureiros! Várias vezes seguimos o caminho pedestre da Foz D’Égua e após alguns quilómetros de agradáveis caminhadas, mergulhávamos nas águas puras desta praia paradisíaca. Muitas foram as fotos tiradas na ponte de corda.

As nossas férias também eram repartidas pelas inúmeras praias fluviais junto a Castelo Branco, verdadeiros oásis nos meses mais quentes. Refrescávamo-nos na Praia da Aldeia da Ruiva, deslumbrados com a paisagem natural da Praia da Sertã e, em outras ocasiões, nas piscinas flutuantes da Praia do Malhadal.

Já as Praias da Aldeia do Mato, perto de Abrantes, de Cardigos ou do Carvoeiro, próximas de Mação, e da Quinta do Barco, perto de Sever do Vouga, ofereciam as melhores instalações e equipamentos para passar uns dias sublimes, no meio da natureza.

E a Praia do Agroal, no concelho de Ourém? Um verdadeiro paraíso ecológico que brota do leito do rio Nabão. Desta fonte natural nasce uma água mineralizada. Fria! Fria, não. Gelada! Mas com propriedades curativas para os problemas de pele, segundo a secular tradição popular.

Antes ou depois, a alguns quilómetros dali, parávamos em Fátima. No Santuário, desfrutávamos de um silêncio único e de uma paz inexplicavelmente arrebatadora. Lavávamos a alma. Intensamente.

Abro os olhos.

O cheiro inconfundível a peixe fresco grelhado desperta os meus sentidos. Isso uma boa caldeirada de peixe ou uma cataplana de marisco, também nos irá lavar a alma.

“Mãe, temos fome!”, grita o primeiro dos meus ciclistas a chegar perto de mim, já no passadiço. Estamos em sintonia. 

É uma alegria enorme estarmos hoje novamente juntos e podermo-nos abraçar. Ao almoço, temos muito para planear no Centro de Portugal.

“Mesa para cinco, por favor.”

Mantenha o espírito ao som da nossa playlist.
O Centro de Portugal continua aqui, à sua espera.