A Luísa tem 36 anos e vive no Porto. Os afazeres profissionais e o ritmo urbano consomem-lhe o tempo. Sente-se sufocada e anseia por dias tranquilos, onde as horas passam devagar e os quotidianos parecem eternizar-se ao ritmo da natureza. Há anos que não tira férias a não ser no Verão. Mas hoje é Primavera e sente-se espontânea. Decide colar três folgas quem tem em atraso ao fim-de-semana. Uma escapadinha de cinco dias. Soa-lhe bem. Quer partir em busca de natureza, sol, diversidade paisagística, aldeias cheias de histórias e castelos lendários. Com essa plano em mente, a bússola só aponta num sentido: Centro de Portugal. Sente-se feliz com a sua decisão. Esta noite vai dormir relaxada. De manhã, ainda embriagada pela mesma espontaneidade, escolherá o destino específico no mapa e dirá bom-dia à estrada.

 

Luísa segue por um estreito trilho que atravessa o verde luxuriante do bosque da Lousã, onde corsos e veados costumam deambular ao amanhecer. Ainda é cedo, talvez consiga ver um. O seu destino é a Aldeia de Xisto do Talasnal, onde pretende almoçar num terraço de pedra cercado por um alpendre rústico de madeira, onde se deixará ficar durante a tarde, a beber um café com vista para a serra.

A caminhada parece embalar. Luísa olha para baixo. Já não caminha, os pés estão nos pedais de uma bicicleta, que percorre a Ciclovia do Dão. A estreita e idílica via pintada de vermelho e ladeada por cercas de madeira parece perfurar a natureza, com ligeiras curvas que ondulam entre sobreiros, castanheiros e carvalhos. Há 30 anos, passava por aqui o comboio que ligava Santa Comba Dão a Viseu. Agora a linha está transformada na maior ciclovia do país, com 48 deslumbrantes quilómetros que passam por vinhas, campos cultivados, túneis, pontes e aldeias. É tanta a diversidade cénica do percurso que o próprio piso muda de cor. Ora vermelho, ora verde, ora azul, como as águas do Rio Dão que, de vez em quando, também lhe fazem companhia.

Luísa sente-se relaxada com o som da água. Estendeu uma manta aos quadrados na vegetação e sentou-se, encostada a um sobreiro. É ali, na praia fluvial do Mosteiro, em Pedrogão Grande, que passa a sua tarde, envolta no seu livro preferido e pela brisa tranquila que lhe acaricia o cabelo, neste pequeno paraíso onde as águas frescas da Ribeira de Pera circulam numa cadência suave, até desaguarem numa pequena cascata e se transformarem num riacho.

A sonoridade da água a correr perdura. Mas agora na sua mente. Luísa caminha no topo do Aqueduto dos Pegões, em Tomar, que há 400 anos abastecia o Convento de Cristo. Cessa os passos durante uns instantes. Deixa-se ficar, nos 30 metros de altura daquela imponente estrutura, a contemplar a espantosa paisagem que se perde de vista e a pensar em todo o mistério que parece inundar cada rua histórica da cidade que acabou de explorar. Lendas antigas da Ordem dos templários, rumores de passagens secretas no castelo que levam a tesouros escondidos há séculos, claustros góticos, gárgulas que se debruçam sobre ruas medievais.

Luísa continua a percorrer o trilho de granito. Sente algo de diferente. Os blocos de pedra não são os mesmos. São agora mais grossos, altos, fortificados. Olha para trás e constata que está a atravessar a muralha do Castelo de Belmonte. Há um azul imenso no céu que a rodeia e que contrasta com o amontoado de telhados cor-de-laranja lá em baixo. Desce e percorre as ruelas desta Aldeia Histórica. Questiona-se sobre a origem do seu nome. Há quem lhe diga que se deve ao facto da povoação estar alojada num belo monte. Já outros, garantem que provém do latim ‘belli-monte’, que significa “montes de guerra”, por ter testemunhado os muitos confrontos bélicos entre lusitanos e romanos nestas terras. Seja qual for o motivo, sente-se deslumbrada com Belmonte e a sua multiculturalidade, com as comunidades e tradições judaicas que aqui se enraizaram e mantiveram acesas, em segredo, ao longo dos séculos.

A vela continua a arder na mesa enrugada de madeira. É mais um detalhe pitoresco da rústica taverna em Monsanto, onde Luísa aguarda pacientemente por uma das especialidades gastronómicas da Beira Baixa: ensopado de borrego. “Porque será que lhe chamam a aldeia mais portuguesa de Portugal?”, questiona-se. Resiste à tentação de pesquisar. Quer saciar a sua curiosidade nas ruas, a falar com os seus habitantes quando explorar a aldeia de manhã. Junto à sua mesa há uma janela, afasta a cortina de renda branca e espreita lá para fora.

Luísa esfrega os olhos. Não acredita no que estes lhe relevam. A vista, desafogada e deslumbrante das águas cristalinas do Atlântico, inundou-lhe a tenda no momento em que afastou as suas portas de tecido. “Deve ser por isto que o jornal The Times apelidou este parque de campismo como um dos mais ‘fixes’ do mundo”, pensou. Está sol e calor. Resolve descer à baía e mergulhar nas águas incrivelmente transparentes, que oscilam entre o verde esmeralda e o azul turquesa. Depois, vai explorar cada recanto desta ilha a quem chamam Berlenga Grande. Sabe que algures há um antigo forte, que já enfrentou balas de canhão de piratas e corsários de todos os mares e até de esquadras espanholas, resistindo até aos dias de hoje. Após alguns trilhos a pé, decide subir a bordo de um bote com fundo de vidro para rumar à gruta azul, onde lhe garantiram que ia presenciar um “fenómeno natural espantoso”.

Admirada, Luísa perscruta cada detalhe do casco do barco. Está repleto de pinturas coloridas com motivos tradicionais. É mais uma tradição peculiar destes moliceiros, que sulcam os canais urbanos da Ria de Aveiro. Esta “Veneza Portuguesa” desperta-lhe o romantismo. Sente a brisa que traz consigo um ligeiro odor a maresia, acaricia a ondulação suave, fecha os olhos e inspira fundo, uma inspiração tão longa e distante que parece poder leva-la onde ela quiser ir.

Abre os olhos. Sorri, levanta-se num sobressalto e abre a persiana. Luísa acordou entusiasmada. Fartou-se de sonhar toda a noite. Agora, está na hora de enfrentar o doce dilema que é escolher um dos destinos do Centro de Portugal e partir. E você, que viaja por estas linhas; não estará na hora de, finalmente, enfrentar o seu?