Cristina Rodrigues (Porto, 1980) é uma das artistas plásticas portuguesas mais importantes da sua geração. O ecletismo que emana das suas obras exprime as suas paixões e a sua formação académica. Toda a sua obra é regida por uma estética simples que liga a etnografia social, a antropologia e a sustentabilidade. A artista elabora as suas peças com minúcia e, como resultado, obtém relíquias escultóricas que realçam o percurso do conjunto da sua obra, assim como a identidade artística de objetos obsoletos. As suas obras possuem um significado universal, mas brotam da inspiração local.
Nesta Travessia, Cristina Rodrigues propõe-nos uma viagem profunda ao seu mundo interior: uma viagem tão experiencial quanto transformadora. Através de cada uma das obras expostas, somos convidados ao abandono, a uma espécie de trégua gerada na lentidão da noite. Suspenderemos a nossa vida quotidiana para empreendermos um caminho profundo em direção ao desconhecido, a um território que chama por nós. Cada uma das obras oferece-nos a oportunidade de nos descobrirmos a nós mesmos, de descobrirmos o reflexo das nossas vidas.
A obra de Cristina Rodrigues nasce, talvez, dessa necessidade transformadora da vida, do silêncio, das etapas da viagem ao interior do ser, do absurdo da existência, que contradiz sempre a criação. Cristina Rodrigues explora com as suas próprias formas e realiza, através da experiência do silêncio, uma busca no traço do vento, nas suas memórias, no exercício do sonho.
Sobre as paredes brancas repousam, ocultas, as figuras humanas, como alegorias que jazem sob a lua. O anjo cobre o sol com as asas, como se quisesse despedaçar o equilíbrio da natureza. A sombra cobre tudo e o vento leva consigo os últimos gestos, mas o desejo dourado continua a existir enredado na escuridão.
Cristina Rodrigues desenha as suas próprias linhas e, nelas, o desejo da sua experiência e das suas paixões. A noite fica em suspenso como uma linha fina no horizonte.
As cores erguem-se frias na recordação de todas as vidas possíveis que existem entre o céu e a terra: um jardim petrificado, um abandono em suspenso. Tornamo-nos invisíveis sobre a terra. Ficamos órfãos e à deriva sobre um mapa têxtil sem itinerário marcado. E o vento não sopra.
Contudo, permanece ainda o rosto da esperança em cada traço. Em cada desenho, é revelada a sabedoria dos tempos, dos animais antigos e infinitos. Os sons em flor atravessam a garganta, como a erva fina que afunda as suas raízes na terra do velho jardim.
A voz de Cristina Rodrigues congrega a de todas as mulheres esquecidas e acompanha-nos em cada peça, traçando um caminho próprio que deixará marcas na história da criação atual.