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Palácio de Anadia: onde a imaginação é a anfitriã

As portadas estão abertas e permitem que a sonoridade dócil da harpa alcance a varanda do palácio. Ela está lá, debruçada sobre a balaustrada de pedra antiga, a saborear serenamente um cálice de vinho produzido na propriedade. Contempla as folhas de um plátano com mais de 100 anos que ondulam ao sabor da brisa de final de primavera; o azul ainda pouco escuro no céu, o perfume das videiras, a aragem morna que lhe acaricia a pele, tudo isso lhe desperta uma sensação confortante. Tradição, sentimento de pertença, infinitas possibilidades. Neste domingo de meados do século XIX, o anfitrião já lhe mostrou um jardim cheio de recantos encantadores, uma elegante coleção de esculturas em biscuit, que representam estátuas encontradas nas escavações de Herculano e Pompeia, uma biblioteca repleta de raridades literárias, inúmeras obras de arte italianas e azulejos setecentistas que contam histórias da mitologia clássica. Até lhe terá sido confidenciado que uma das divisões desta casa esconde um mistério.

Tudo isto não foi, propriamente, o que aconteceu no Palácio de Anadia, em Mangualde. Mas foi o que imaginámos ao visitar este magnífico espaço, recentemente convertido ao turismo. E imaginação não faltou durante esta visita. Todos os recantos do palácio estimulam a imaginação, os seus salões cheios de História, a arte que vive nas suas paredes, a sua mata encantada, a arquitetura barroco setecentista, as individualidades históricas que aqui pernoitaram, a passagem secreta que existe num dos quartos e que, obviamente, não resistimos à tentação de explorar.

A História


A casa começou a ser construída em 1644 mas o grande impulso foi no século XVIII, tendo a construção e a decoração demorado quase um século e envolvido três gerações da família Paes do Amaral, tornando-se num dos mais belos exemplares da arquitetura barroca da região do Dão. Foi uma casa senhorial – conhecida como Casa dos Paes do Amaral – até 1821, quando Manuel de Sá Pais do Amaral casa com D. Maria Luiza de Sá Pereira de Menezes de Melo Sottomayor, Condessa de Anadia, passando então a designar-se Palácio de Anadia.
“É das poucas casas em Portugal que ainda pertence à mesma família há 300 anos”, afirma Cláudia Paiva, diretora Geral da Palácio Anadia Verago II, empresa que gere a conversão do palácio ao turismo, que ocorreu em 2018.


“Temos um projeto bastante ambicioso para este palácio, que não se fecha no palácio. O objetivo é, tendo em conta a dimensão da propriedade, todos os anos ir apresentando novidades, novos serviços e novos produtos aos visitantes, queremos que as pessoas venham e tenham interesse em voltar”, assegura.
O Palácio de Anadia insere-se numa propriedade murada de 40 hectares, constituída pelo imponente edifício, pelos seus jardins históricos, hortas, vinhas e uma extensa mata.

A abertura do palácio ao mundo


Nos últimos três anos, 10 mil pessoas visitaram o Palácio de Anadia. “São números extraordinários para Mangualde”, afirma Cláudia. “Costumo dizer que esta cidade fica perto e longe de tudo. Está a hora e meia do Porto, de Coimbra, de Aveiro”.
Começaram por ser maioritariamente estrangeiros, especialmente espanhóis. Depois, com a pandemia e a procura crescente de turismo no Interior, os portugueses começaram a aderir cada vez mais. O próximo passo é rejuvenescer o target dos visitantes. E foi com esse intuito que surgiu uma das inovações instituídas no Palácio de Anadia: a natureza das visitas guiadas, cujos guiões são escritos com um discurso adaptável aos vários tipos de públicos. “Temos guiões com imensa seriedade técnica mas nunca perdendo o storytelling”, garante Cláudia. “O objetivo é criar uma história envolvente para que, no final do dia, as pessoas saiam daqui com expressões de deslumbre, maravilhadas”.

A estadia


Foi durante uma manhã ensolarada de inverno que acompanhámos uma dessas visitas. São extremamente dinâmicas e abundam os detalhes históricos, culturais, arquitetónicos, patrimoniais; as curiosidades de outros tempos, de outras realidades.
À medida que exploramos a imensidão do palácio, constatamos que se torna redundante descrever os seus espaços. Esta é uma viagem de encanto, de admiração e, sobretudo, de imaginação.


O salão masculino, ligeiramente escuro, com um cadeirão ornamentado de madeira e com as paredes recheadas de gravuras a representar diversos temas – mitologia, justiça, filosofia, poesia e teologia – onde se imagina o fumo dos charutos a pairar no ar e os homens a jogar bilhar nos serões.

Mesmo ao lado, a sala feminina, mais arejada e banhada por luz natural, ornamentada com azulejos e perfumada por flores, onde se imagina o convívio das mulheres em tardes chuvosas de primavera.

A biblioteca, com as suas estantes cobertas por lombadas de couro que escondem conhecimento antigo e com uma poltrona junto à janela, onde se imagina alguém a ler sob a luz matinal.


A sala de jantar, com as paredes adornadas com pinturas alusivas aos animais que geralmente compunham as refeições – lebre, perdiz, pato, peixe, entre outros – e com a mesa montada pela própria condessa, com louças originárias de Nápoles e datadas de 1804, onde se imaginam jantares à luz de castiçais.

O amplo salão nobre, decorado por oito painéis de azulejos setecentistas inspirados em temas mitológicos e representando as quatro partes do Mundo conhecidas até então – Europa, África, América e Ásia – tal como os quatro elementos, representados por deuses Romanos: Neptuno (água), Vénus (terra), Juno (ar) e Vulcano (fogo), onde se imaginam as receções formais a personalidades ilustres.

A sala de música, decorada com chinoiseries – expressão que designava imitações ou evocações dos estilos chineses (exóticos e raros na altura) na arte ocidental do século XVIII, por combinarem com o estilo rococó dominante na época – onde se imaginam as crianças em plena instrução musical.

O salão de baile, com um piano de cauda num dos cantos e com as paredes revestidas com azulejos que representam o “mundo ao contrário”, inspirados num livro inglês do século XVIII intitulado “The World Turned Upside Down or The Folly of Man”, que apresenta uma inversão social da realidade: Cavalos a combater no dorso de cavaleiros, uma aluna a dar açoites ao professor, porcos a assar humanos no espeto, a esposa que vai caçar enquanto o marido fica a tomar conta da criança, o jumento que supervisiona o homem a carregar fardos de palha, um pássaro que captura uma mulher, o seu amante e o seu marido numa rede.
Não é difícil entrar aqui e imaginar as noites animadas, os temas desinibidos de conversa sobre os tabus da época, a música, a dança, as enormes portadas de madeira branca, abertas para a varanda que inspirou o prelúdio deste texto.

“Neste salão fica demonstrado o arrojo desta família, a irreverência está impregnada no código genético desta casa, que espelha o espírito empreendedor e desafiador – no bom sentido – que a família sempre teve”, afirma Cláudia, que revela que essa natureza arrojada e disruptiva também está presente na estratégia de marketing digital adotada para promover o palácio. “Nestas casas da família há um dogma muito comum, defende-se que nas estratégias de comunicação não se devem partilhar os interiores, pois quanto mais se partilha, menos as pessoas têm apetência em vir, porque já viram. É errado! Nós achamos que quanto mais mostramos, mais aguçamos a curiosidade das pessoas para desejar ver pelos seus próprios olhos, para desejar experienciar. Havia um grande pudor em partilhar os interiores, fomos completamente fora-da-caixa nesse aspeto”.

Ao consultar a página do Facebook do palácio, encontram-se muitas dessas partilhas, desde quadros, coleções de leques, peças de mobiliário, aquários do século XVIII, ou “trajes que nos transportam para outros tempos de charme”.
“Foram encontrados no sótão pela condessa, dentro de baús. Muitos desses trajes têm mais de um século e estão impecáveis”, refere Cláudia. A coleção está patente numa das divisões do palácio e tem a curadoria do Museu Nacional do Traje. “A magnitude da coleção é gigantesca, inclui até trajes de criança, que são extremamente raros. Mudamos a exposição ciclicamente, uma vez por ano”.


Os jardins históricos


Os jardins do Palácio de Anadia foram abertos ao público em 2020. “Estamos na Rota dos Jardins Históricos portugueses e na Rota do Dão”, afirma Cláudia, partilhando que estes jardins têm uma especificidade única. “São dos poucos em Portugal que respeitam a sua génese; é um jardim agrícola, eram assim as casas senhoriais do século XVII, autossuficientes, tudo o que se consumia na casa era produzido aqui. Mantivemos esses elementos agrícolas no jardim”.
Um desses exemplos são as “couves da condessa”, cuja história deixamos para ser descortinada na visita.

O jardim, que naqueles tempos era um importante espaço de convivências, passeios e percursos recreativos, está repleto de canteiros, flores, fontes, tanques com nenúfares, um pequeno lago com flores de lótus e longos caminhos que atravessam sebes impecavelmente aparadas.
Encontramos uma zona com gaiolas enormes, onde sem mantinham os animais exóticos que a família trazia das suas viagens pelo mundo. “Até as gaiolas são chiques”, brinca Cláudia, apontando para o chão, que é feito de azulejo. “Pretendemos reabilitar este espaço no futuro e ter aqui algumas aves”.

Cláudia salienta também a existência de uma estufa, outro exemplo “à frente do seu tempo” nesta propriedade. “Tinha uma caldeira para gerar humidade de forma a manter a temperatura ideal para os bolbos”, afirma. “É mais um projeto para recuperação”.

A poucos metros de lá, ergue-se uma Magnólia que capta a sua atenção. “Esta é umas das árvores mais magníficas do palácio”; a par do Plátano com 300 anos no terreiro em frente à varanda do palácio, de onde se avista toda a propriedade.

A visita aos jardins é orientada, mas livre. “Os visitantes têm a possibilidade de desfrutar livremente, sem pressa”. E há muito para desfrutar, com as vinhas a prolongar-se no horizonte com a serra da Estrela como pano de fundo. “Se há château em Portugal, é aqui! Temos uma casa de família toda murada com vinhas, uma área agrícola e uma mata, tudo isso no centro de uma cidade que foi construída à sua volta”. Sorri e volta a frisar: “Se há château em Portugal, é aqui”, aludindo a um outro plano turístico diferenciador desta propriedade.

O “château de Portugal”


A vinha e o vinho sempre fizeram parte da propriedade, mas ganharam destaque na segunda metade do século XX, quando D. Manuel Maria de Sá Paes do Amaral plantou uma pequena vinha, que apelidou de “Vinha do Conde”, cujo vinho era usado para consumo próprio e com os amigos.

Em 2010, o filho, Miguel Paes do Amaral, criou uma vinha nova de raiz, “para fazer um projeto vinícola com a mesma ambição que tem o projeto turístico do palácio”, afirma Cláudia.

Em 2013 foi lançado o primeiro vinho, tendo o projeto sido revitalizado em 2018, sob a marca “Conde de Anadia”, outro desígnio assumidamente disruptivo. “Chegámos ao Dão, onde o classicismo dos vinhos assume preponderância na estratégia das grandes casas e nós viemos, com algum arrojo e com uma equipa inovadora, tentar lançar coisas diferentes, como um blanc de noir, um vinho branco com uvas tintas, completamente transparente. Temos também um reserva branco e um reserva tinto, a honrar o vinho clássico do Dão, mas sempre com um piscar de olho à inovação”.

As experiências de enologia ocorrem na adega, com provas dos vários vinhos produzidos na propriedade. “Após uma hora a caminhar pela imensidão do palácio, faz toda a diferença este compasso de espera, beber um copo de vinho e relaxar, antes de partir para a próxima exploração, livre, pela imensidão dos jardins”.


A mata secular

Envolvido por pedra e vegetação, o pesado portão de ferro abre-se para uma imensidão de verde. As densas copas dos pinheiros, castanheiros, nogueiras, loureiros, medronheiros, cedros ou carvalhos por vezes parecem criar túneis que cobrem os trilhos revestidos por folhas caídas de outono. A cada passo, sente-se a natureza em estado puro. “Isto é uma mata quase virgem, as espécies que aqui estão permanecem intocadas ao longo de séculos”.


Ao todo são 15 os hectares desta mata do século XVIII que se estendem pela propriedade do Palácio. “Nem parece que estamos no meio de uma cidade, pois não?”. Só se ouve o vento a abanar a vegetação e o cântico dos pássaros. A cada passo, encontram-se nozes e castanhas pelo caminho. “Os ingredientes estão todos cá para transformar isto numa experiência turística”. Cláudia revela que pretendem abrir a mata ao público em 2022. Ainda não sabem em que moldes ou formato. “Está ainda a ser estudado. Mas esta imensidão abre um variado leque de possibilidades”. Quem sabe, até poderá “vir a surgir a possibilidade” de uma estadia.

Quem costumava aqui pernoitar eram ordens religiosas, a quem a família costumava ceder este espaço para retiros espirituais. Há inúmeros indícios que remetem para isso, como os vestígios de um velho anfiteatro em pedra, palco de oratória ou peças de teatro. Ou as ruínas enigmáticas de um edifício cuja origem ainda gera imensas interrogações.

“Por um lado há elementos que parecem de natureza religiosa, como uma estrutura em forma de arco no topo que parece induzir a presença de um sino. Mas por outro, há uma ausência total de registos sobre esta edificação”, informa Cláudia. Percorremos o seu interior, que foi completamente conquistado pela vegetação. A sua forma e estrutura induz uma capela, mas depois há elementos incongruentes com esse desígnio, como uma enorme lareira a meio do espaço. “Na casa temos muitas inscrições, com datas ou nomes, há sempre algo que nos remete para determinado tempo ou enquadramento. Aqui é uma ausência total de identificação. É um mistério no Palácio de Anadia”. Mas não é o único.


O segredo do palácio


O passado secular do Palácio de Anadia caminha ao lado da própria História. Em setembro de 1882, na inauguração da Linha Beira Alta, o Rei D. Luís I e a Rainha D. Maria Pia ficaram aqui hospedados. No verão de 1896, abriu as suas portas à visita da Rei D. Carlos I e da Rainha D. Amélia e dos dois jovens príncipes. E muitas décadas antes, em 1810, durante a terceira Invasão Francesa, quando Mangualde foi atacada e devastada pelo exército invasor e assistiu, indefesa, ao alojamento forçado dos oficiais franceses nas suas casas mais ricas, o marechal Massena escolheu-o para si. Pernoitou no palácio de 18 para 19 de setembro, antes de partir para o Bussaco, onde viria a ser derrotado pelo duque de Wellington, que liderava o exército anglo-luso.



E o passado secular do palácio de Anadia também esconde segredos. Numa das suas divisões viveu um Bailio, um importante membro dos Cavaleiros da Ordem de Malta. O quarto está recheado com quadros de batalhas navais travadas pelos Cavaleiros de Malta, mapas da ilha de Malta, inúmeros livros antigos, uma escrivaninha setecentista, uma cama com dossel e uma cómoda de madeira, que na realidade não é uma cómoda.

O seu tampo desloca-se e desvenda uma passagem secreta, por onde uma escada desce rumo ao desconhecido. Percorremo-la devagar, saboreando cada instante daquele momento, observando as enigmáticas pinturas nas paredes e antevendo, com entusiasmo, o que nos espera ao fundo da escadaria de pedra e madeira. Deparamos com um caldário, uma influência vinda de Itália e inspirada nas antigas termas romanas, onde uma larga banheira de pedra é aquecida por um forno subterrâneo.
Ao lado, há um móvel com figuras de índole religioso e um enorme armário de madeira embutido na parede, que na realidade é mais uma passagem secreta, que vai dar à cozinha do palácio. Uma outra passagem leva-nos a uma capela privada.

O propósito desta passagem oculta alimenta muitas teorias. Há quem diga que era uma forma discreta de propiciar encontros indiscretos. Há quem defenda que era apenas um ponto de fuga, em caso de uma invasão. A resposta ficou presa no passado do palácio e a sua ausência permite, mais uma vez, libertar a imaginação, que correu livre e entusiasmada durante toda esta experiência.

“Sim, visitar o palácio é uma experiência”, afirma Cláudia, com um sorriso. “Dependendo da motivação que nos traz cá, podemos ter várias experiências; culturais, históricas, arquitetónicas, de lazer, de enologia”.

A missão, essa há muito que deixou de ser um segredo: Transformar um edifício nobre que durante séculos e décadas apenas viveu na curiosidade da população, num ex-libris turístico do Centro de Portugal.