Quando pensamos em Oeste, a areia branca e o mar azul invadem de imediato o nosso imaginário. E quando falamos de praia, as ondas da Nazaré são das primeiras que desejamos encontrar. É exatamente aqui que começamos esta viagem pela Costa de Prata.

Mas vamos à primeira dica deste roteiro: sempre que possível, comece por conhecer um destino a partir de um ponto elevado. Neste caso, a nossa sugestão cai facilmente sobre o Sítio. Não, não é engano nem brincadeira. É aqui, no Sítio da Nazaré, que encontra o Santuário de Nossa Senhora da Nazaré onde está guardada a imagem de uma Virgem Negra esculpida em madeira e trazida de Mérida em 711, assim como uma das paisagens mais características da região. Mas não nos ficamos por aqui: esqueça o miradouro principal, em plena praça do santuário e siga pelas pequenas escadas da Rua do Círio da Prata Grande. É no final dessa escadaria que encontrará um miradouro mais pequeno, menos concorrido e com um romântico banquinho, muito útil em sessões fotográficas. A vista inclui a Nazaré, a sua praia de extenso areal e um mar que nunca mais acaba.

Nazaré

Deixou o carro bem estacionado? Ainda bem, porque não vamos precisar dele tão cedo. Perca-se pelas ruelas labirínticas do Sítio, procure pela Rua do Elevador e entre na típica casa azul e branca. A viagem de ascensor demora pouco mais do que cinco minutos e o destino é, sem grande surpresa, o centro da Nazaré.

Nazaré rima com praia e, por isso mesmo, pôr o pé no areal é obrigatório. Entrar no mar e apanhar umas ondas é opcional, mas acredite que vai encontrar muitos surfistas de prancha debaixo do braço a correr em direção à água. Ganhe coragem e marque, pelo menos, uma aula para aprender o básico e tirar partido de uma das melhores praias do país para a prática desta e de outras modalidades náuticas: a Praia da Nazaré.

Se o surf não for muito a sua onda, pode sempre optar por um passeio à beira-mar e descobrir as tradições locais. Não terá de caminhar muito até encontrar alguns barcos no areal, na zona mais a sul. Não estranhe: trata-se do Museu Vivo do Peixe Seco. A tradição de secar o peixe ao sol nasceu da necessidade de preservar algum peixe para dias de escassez. Hoje, poderá descobrir as memórias piscatórias em três núcleos: o estendal de secagem do peixe; o Centro Interpretativo, onde se descobrem as técnicas e as estórias; e a zona de preparação do pescado onde, ainda hoje, o peixe é preparado para o processo de secagem. Dependendo das condições climatéricas, ainda será possível encontrar peixeiras a vender peixe seco.

A Nazaré é também um ponto de partida para outros caminhos. Falamos dos Caminhos de Fátima, que ligam esta vila costeira ao também apelidado “Altar do Mundo”, a cerca de 40 quilómetros. E não são poucos os peregrinos que, chegados a Fátima, se aventuram pelos Caminhos de Santiago, e rumam, pelo Caminho do Norte em direção a Santiago de Compostela.

Caminhos de Fátima e de Santiago

Em Portugal, todos os caminhos vão dar a Fátima. O Caminho da Nazaré é um dos percursos mais procurados no Oeste, em qualquer um dos sentidos. Partindo de Fátima, os peregrinos procuram chegar ao seu finisterra, “onde a Terra acaba e o mar começa”, à semelhança do que acontece na Galiza. Seguindo em direção a Fátima, são percorridos cerca de 40 quilómetros.

O Caminho do Mar é outro percurso na região. Com início no Estoril e término em Fátima, milhares de peregrinos passam por Torres Vedras, Bombarral, Óbidos, Caldas da Rainha e Alcobaça.

Ambos os percursos estão intimamente relacionados com Santiago de Compostela, para onde os mais corajosos podem seguir a partir de Fátima.

Santuário de Fátima

Voltamos ao carro novamente pelo ascensor e seguimos pela Estrada da Nazaré em direção a Alcobaça. Pelo caminho deixamos a nossa veia decorativa falar mais alto e paramos na Fábrica de Cristal Atlantis, não só para apreciar (e comprar, já agora) algumas peças na loja, mas também para descobrir, no Centro de Visitas, a história da marca e a sua importância na região. Pertencente à família Vista Alegre, saiba que pode ainda complementar a visita a este espaço com uma outra, em Ílhavo.

Retomamos o caminho e paramos alguns quilómetros depois, no Mosteiro de Santa Maria de Cós. Quem passa por esta relíquia do século XIII não tem ideia da beleza que se encontra dentro de portas. O silêncio é ensurdecedor e as cores da decoração surpreendem pelo contraste com a simplicidade do Mosteiro de Alcobaça, ambos pertencentes à mesma Ordem. Aqui, as monjas de Cister viviam em clausura, como é típico dos mosteiros femininos. Não deixe o espanto toldar a visão e repare nas cruzes nas pedras dos altares, sinais de uma Via Sacra, e nas maçãs que acompanham as figuras dos Anjos, que demonstram a importância do fruto na região já na época. Repare, também, na simetria: as portas e os altares são iguais tanto do lado direito como do lado esquerdo. Esta era uma forma de não desestabilizar o momento de introspeção e de contacto com Deus. A visita segue pela sacristia, revestida a azulejos do século XVIII com passagens da vida de S. Bernardo, incluindo algumas tentações, algo incomum na época.

De regresso ao exterior, repare nos dois claustros, destruídos aquando da extinção das ordens religiosas. Apesar do seu estado de ruína, é impossível ficar indiferente ao encanto desta pérola histórica. Mas prepare-se. Logo de seguida irá descobrir um dos mais impressionates monumentos da Região.

Mosteiro de Alcobaça

Após oito quilómetros de viagem encontrará, finalmente, o Mosteiro de Alcobaça, Património Mundial da Humanidade desde 1989. É aqui que celebramos o amor eterno de D. Pedro e D. Inês de Castro, cujos túmulos são visitáveis de forma gratuita, na Igreja do Mosteiro. Deslumbre-se com os detalhes esculpidos, que narram estórias e relatam a vida de ambos, e repare que estão colocados de pés virados um para o outro para que, quando se voltassem a reunir numa próxima vida, se encontrassem frente-a-frente. Já a simplicidade da Igreja, típica da Ordem de Cister, salta à vista por dispensar grandes ornamentos e imagens para chegar a Deus.

A visita ao Mosteiro (que já implica bilhete) começa pela Sala dos Reis onde encontra estátuas de vários monarcas portugueses, esculpidas pela mestria dos antigos monges barristas. Passa ainda pelo Claustro D. Dinis, também conhecido por Claustro do Silêncio por, em torno dele, circularem os monges em silêncio voluntário por amor à Regra; pela Sala do Capítulo; e pelo Dormitório Comum, no piso superior, onde uma janela deixa espreitar os túmulos imortais de D. Pedro e D. Inês de Castro. Ao Refeitório está ligada a Cozinha, que impressiona pela considerável dimensão da chaminé.

Se preferir uma experiência mais aprofundada, mostre interesse numa das visitas guiadas na bilheteira, que decorrem às 11h e às 16h. Às 15h, a visita é temática, ainda que verse sobre temas distintos de dia para dia.

Depois da visita ao Mosteiro de Alcobaça, não somos capazes de resistir à premiada doçaria conventual da região, nascida no seio dos conventos e mosteiros, onde abundavam as gemas, o açúcar e os frutos sazonais e secos. Reza a lenda que, aquando duma visita à localidade, foi servida a D. Carlos uma doce iguaria conventual que poderia ter culminado em aparente desastre culinário, tal foi a pressa e atrapalhação para agradar ao palato exigente de tão excelso convidado: a cozedura da massa ficou incompleta. Para espanto e inesperado alívio da cozinheira, o Pão-de-Ló de Alfeizerão foi um êxito e tem-se mantido assim, mal cozido, até aos nossos dias. Mas este é apenas um dos exemplares que merece ser provado. A nossa sugestão é que faça um pequeno roteiro pelas várias pastelarias de Alcobaça, perca a cabeça e experimente o máximo possível, sabendo que são fruto de muitos séculos de conhecimento e aprimoramento de receitas, assentes no secretismo dos seus ingredientes e diversas confeções.

Mas nem só de doces vive o panorama gastronómico de Alcobaça. A maçã é, na verdade, uma das rainhas da região. Por isso mesmo, sempre que encontrar algum doce feito com ou à base de maçã de Alcobaça, não hesite. É produzida local e tradicionalmente, a partir de um “saber fazer” secular. Se a fizer acompanhar por uma ginja, ainda melhor.